segunda-feira, 26 de setembro de 2022

"Manifesto à Nação", por Ciro Gomes




MANIFESTO À NAÇÃO

Na maioria das vezes em que um movimento nacionalista se levanta no Brasil, ele é  destruído pelas forças do atraso ou se autodestrói por acordos eleitorais espúrios.

É um  jogo de culpa-desculpa, trágico e repetitivo.

Para  esconder a culpa da renúncia covarde aos verdadeiros  ideais de mudança, muitos se escondem na desculpa de que para governar é necessária uma aliança com as forças do atraso.

E para eliminar, na raiz, a diversidade do embate democrático tentam transformá-lo, de forma artificial e prematura, no embate de duas forças que utilizam falsos argumentos morais para se tornarem hegemônicas.

Aqueles que ousam resistir —como é nosso caso—, são vítimas das mais violentas campanhas de intimidação, mentiras e de operações de destruição de imagem.

É o que está acontecendo agora quando estou sendo vítima de uma gigantesca e virulenta  campanha, nacional e internacional, para retirada da minha candidatura.

Mas nada deterá nossa disposição de seguir em  frente a empunhar a bandeira do novo Projeto Nacional de Desenvolvimento e, também, a denunciar os corruptos, farsantes e demagogos que tentam ludibriar a fé popular com suas falsas promessas.

Hoje, a máscara desta farsa cobre duas faces que, mesmo possuindo certos conteúdos e   contornos diferentes, trazem, de forma profunda,a matriz histórica dos erros que há décadas atrasam o Brasil e escravizam nosso povo.

É esta matriz —escrava de um modo corrupto de governar e de um modelo econômico  submisso aos interesses do mercado financeiro— que une Lula e Bolsonaro.

Bolsonaro não existiria se não fosse a grave crise econômica e moral dos governos petistas.

E Lula não sobreviveria, em sua ameaçadora decadência, se não fossem os desatinos criminosos de Bolsonaro.

Mesmo assim, as máquinas poderosas do lulismo e do bolsonarismo estão conseguindo ludibriar a percepção popular, passando a falsa ideia de que apenas um pode derrotar o outro.

E que este passo atrás é o único meio de levar o país adiante.

Esse rito suicida tem o incentivo comodista e covarde de setores da mídia e da  inteligência  que, em uma mistura de cumplicidade, amnésia e medo, perderam a nitidez dos fatos, das  causas, dos efeitos e de suas perigosas consequências.

Reduziram o debate a um choque vazio e oportunista entre um suposto bem e um suposto mal, enquanto produzem a campanha mais sem propostas e sem projeto da nossa história recente.

De forma deliberada, não questionam o fato de o Brasil vir adotando, há 30 anos, um modelo político baseado no conchavo, na corrupção e no toma lá dá cá; e de vir prolongando a vida de um modelo econômico  que  entrega  a riqueza do país para quem já tem muito e que distribui migalhas para quem tem pouco.

Em uma  das engenharias financeiras mais perversas da história mundial conseguiram  transformar, de 2003 a 2021, uma dívida pública de pouco mais de 600 bilhões de reais em uma dívida que ultrapassa 7 trilhões, mesmo tendo pago praticamente outros 7 trilhões.

Em termos  gerais, a cada trilhão que pagamos da dívida, ela aumenta em mais um  trilhão,  ao invés de diminuir, algo completamente absurdo, ainda mais se lembrarmos que as taxas de juros são definidas pelo próprio governo.

Não por acaso, esta trágica engenharia  financeira  transformou-se em uma pavorosa tragédia social.

Por esta e outras razões, o Brasil tem uma das piores concentrações de renda e desigualdades sociais do mundo.

Aqui, os cinco mais ricos acumulam uma fortuna equivalente a tudo que os 100 milhões  de brasileiros  mais pobres  possuem,  e cinco bancos  concentram 85% do mercado, o que lhes permite impor à população os juros mais altos do planeta.

Esquecem-se, ou fingem esquecer, que, exatamente por isso, cerca de 40 mil indústrias e mais de 350 mil comércios fecharam as portas do governo Dilma para cá; e que mais de 66,6 milhões de pessoas e 6 milhões de micro, pequenas e médias empresas estão com o nome sujo no SPC ou no Serasa.

É por conta desse esquecimento deliberado e criminoso que ostentamos tantos outros números que nos causam vergonha e indignação.

Somos o segundo maior produtor de alimentos do mundo, porém aqui mais de 33 milhões  de brasileiros passam fome, 125 milhões não conseguem fazer as três refeições diárias e  até carcaças de animais são vendidas como alimento.

Somos uma das maiores economias do planeta, mas aqui 55,5 milhões de pessoas vivem só com 14 reais ou menos ainda por dia; o desemprego ronda a casa dos 10 milhões; 5 milhões são desalentados, ou seja, pessoas que  já desistiram de procurar emprego; e o subemprego, que paga menos que o mínimo e não garante nenhum direito, tornou-se a regra geral e não a exceção.

Lula e o PT passaram 14 anos no poder e deixaram o Brasil com os mesmos problemas que encontraram. A prova disso é a rápida evaporação dos efeitos da fugaz benesse que   conseguiram produzir impulsionada por ciclos favoráveis das commodities.

Lula continua a repetir que colocou os pobres no orçamento quando, na verdade, os contentou com migalhas, deixando-os onde sempre estiveram: na escravidão da pobreza.

Bolsonaro, sua cria maligna, seguiu parte desta cartilha, aliando-se ao Centrão e vendendo-se à corrupção e ao clientelismo.

E acrescentou, sem dúvida, conteúdos gigantescamente mais pavorosos: o desrespeito às instituições e crimes contra a humanidade.

Mas estas diferenças não conseguem os separar de todo.

Ao contrário, conteúdos políticos e econômicos profundos mais os aproximam do que os separam.

Por isso tudo, o Brasil está na iminência de sofrer a maior fraude eleitoral da nossa história.

Não a mentirosa fraude das urnas eletrônicas, inventada por Bolsonaro.

Mas a fraude do estelionato eleitoral que sofrerão as vítimas que apertarem, nas umas invioláveis, o 13 ou o 22.

As urnas são de fato invioláveis, mas a legítima vontade popular está sendo tremendamente  violada.

Pois os que pensam que ao apertar o 13 elegerão Lula (mesmo que com seus defeitos), estarão, na verdade, elegendo os mesmos que saquearam o país nos últimos anos, com os quais Lula vergonhosamente de novo se aliou.

Aqueles que pensam que ao apertar  o 22 elegerão  Bolsonaro  (mesmo  que com suas deformidades) estarão, na verdade, elegendo  a outra parte da corja que  saqueou  o país  em  governos  anteriores, e que pularam  agora para um novo barco que disputa, com a mesma rota, a reta de chegada ao caos.

Mas ninguém traz isso para o debate.

Agora, na reta final da campanha mais vazia da história, embalam tudo no falso argumento do “voto útil”.

Com esta pregação, querem eliminar a liberdade das pessoas de votarem, no regime de  dois  turnos,  primeiro  no  candidato  que  mais  representa  seus valores, e, se for o caso, de optarem depois por aquele que mais se aproxime de suas ideias.

Querem privá-las do direito de expressar  seus sonhos e de testar a força de suas posições, enriquecendo o debate e fortalecendo  a pluralidade de ideias.

Querem calar as vozes das dissidências e submetê-las, sob o regime do medo e do terror velado, a dois blocos rivais que se escondem no maniqueísmo e no personalismo para disfarçar as profundas semelhanças  de suas candidaturas.

Por mais jogo sujo que pratiquem, eles não me intimidarão.

Não fugirei do verdadeiro embate democrático e não compactuarei com esta farsa.

Tenho compromisso de vida e morte com a luta por um Brasil melhor e nada me amedrontará nem irá me deter!

Minha candidatura está de pé para defender o Brasil em qualquer circunstância. E meu nome continua posto, como firme e legítima opção, para livrar nosso país de um presente covarde e de futuro amedrontador.

Com rebeldia e esperança ainda podemos, juntos, salvar nossa pátria.

Levanta, Brasil!



"Luloafetivos não sabem se voto útil é para derrotar Bolsonaro ou Ciro", por Madeleine Lacsko



Madeleine Lacsko
Colunista do UOL

22/09/2022 09h02

Tenho muita fé de que duas coisas salvarão o Brasil: matemática e antidoping. Ambas são mais que necessárias nesses últimos dez dias de campanha, com redes sociais pegando fogo e fígados falando muito mais alto que cérebros.

Se esculhambação fosse esporte olímpico, acho que nós nem poderíamos competir. O país seria hors concours. Mal começou a campanha luloafetiva pelo "voto útil", já desceu a ladeira completamente.

É normal das democracias a tentativa de convencer adultos a tratar eleições presidenciais como se fosse uma corrida do Jockey Clube. Em vez de escolher um futuro, você aposta no cavalo que ganha. E isso funciona porque, enquanto houver cavalo, São Jorge não anda a pé.

Jair Bolsonaro não faz um governo, faz um acidente de trem. Natural que o oponente mais cotado nas pesquisas, Lula, pregue a utilidade de acabar com a agonia de uma vez só. São democráticos e legítimos os argumentos no sentido de liquidar a fatura no primeiro turno.

A coisa começa a esculhambar na absoluta falta de matemática e lógica básica da artilharia pesada contra Ciro Gomes. Até outro dia, ele e sua militância eram chamados de insignificantes e turma dos 7%.

É preciso decidir: ou são insignificantes ou a existência deles ameaça o futuro do Brasil. Não tem como ser as duas coisas ao mesmo tempo.

A outra coisa é a fake news surgida e sedimentada no imaginário nacional devido à falência absoluta do ensino de matemática. Se Ciro não tivesse "ido a Paris", Haddad teria vencido Bolsonaro.

Primeiro que Ciro estava no Brasil e votou em Haddad. Depois que, se ele fosse ao cartório e doasse ao petista todos os votos dele, Bolsonaro ganharia do mesmo jeito.

A campanha petista em 2018 foi sectária e incompetente. Nos dois quesitos, Jair Bolsonaro ganha de lavada. E foi isso o que ocorreu.

Como diria Homer Simpson "a culpa é minha, coloco em quem eu quiser". É o que fazem sistematicamente o PT e sua gloriosa trupe de apoiadores progressistes gourmet.

Passam anos xingando de fascista, tesourando profissionalmente e difamando todo mundo que não se ajoelha diante de Lula. Depois exigem apoio incondicional para continuar com o mesmo comportamento. Quando não dá certo, arrumam um culpado.

A moda da semana entre os Che Guevara de apartamento é dizer que a candidatura de Ciro não pode existir em nome da democracia. Seria cômico se não fosse trágico.

O eurocentrismo da nossa elite urbana impede que a manobra de construção de um "Arquitecto da Paz" fique clara. Dançam à beira do precipício ao som da perigosa ideia de um único fiador da paz nacional.

Acompanhassem as ideias de algum pensador além dos colonialistas, veriam que é uma forma de destruir democracias e liberdades individuais. Você ergue uma força que seria a pacificadora ou estabilizadora às custas do esmagamento dos direitos e até da dignidade de todas as demais.

José Eduardo dos Santos, falecido ditador de Angola e o mais longevo do continente africano, foi conhecido como o "Arquitecto da Paz". Esmagando qualquer um que o questionasse, acabou com a guerra civil e os conflitos que impediam o país de viver um mínimo de normalidade.

É uma espécie de "paz" diferente da que pregava, por exemplo, Martin Luther King. Para ele, a paz não é a ausência de conflitos, mas a presença de justiça.

Não é esse tipo de paz social pela qual lutam os luloafetivos. Miram mais em Ciro que em Bolsonaro, apelam para o pânico moral diante de eleitores que não sejam de Lula ou Bolsonaro, pregam eliminação de representatividade em nome da democracia, são lenientes com as fake news e a virulência do janonismo.

O desengajamento moral dos luloafetivos já está feito. Consideram que a existência de Lula basta para se opor ao chiqueiro moral do bolsonarismo. Por isso, agem da mesma forma que os bolsonaristas agiam em 2018, achando que o país colherá frutos diferentes. Oremos.

terça-feira, 31 de maio de 2022

"Johnny Depp fez de Amber Heard uma vilã megera em júri circense", por Helen Beltrame-Linné

De todo o lado estouraram memes zombando da atriz e ridicularizando suas alegações de violência doméstica

 

31.mai.2022 às 15h41

Helen Beltrame-Linné


Foi por puro acaso que assisti ao início do julgamento entre Johnny Depp e Amber Heard. Cliquei no link da newsletter por pura curiosidade, querendo colar uma imagem àquelas palavras —afinal, não via o rosto de Depp há anos e nunca tinha ouvido falar de Heard. Mal sabia que estava dando início a um verdadeiro espetáculo seriado do qual seria impossível escapar.

Como em qualquer produto audiovisual que se preze, o segredo é criar um personagem forte logo nos primeiros instantes, e disso se encarregou o testemunho inicial de Depp. Num tom entre o etéreo e o idiossincrático, era difícil desgrudar os olhos da imagem hipnotizante do galã, com sua estranheza e o inegável carisma que lhe rendeu carreira milionária em Hollywood.

Seu depoimento destoava do que costumamos ver em filmes e seriados sobre tribunais —não havia perguntas ou objeções, o que se tinha ali era um monólogo auto-centrado e interminável do ator. Depp falava como que para si mesmo, provavelmente sabendo que a câmera da sala de julgamento se encarregaria de transformar uma fala para ninguém num discurso para milhares.

Ouvindo seus relatos, em especial sobre sua infância, fui tomada por uma empatia triste por aquele personagem. Que milionário infeliz, pensei, não há dinheiro nem sucesso no mundo que vá dar a ele o amor que nunca teve dos pais.

À medida em que o julgamento avançou, com alegações e detalhes sórdidos nas semanas seguintes, continuei sentindo tristeza por aqueles personagens milionários e miseráveis. Mas a esse sentimento se juntou um outro: fui tomada por raiva.

De todo o lado estouravam memes zombando de Heard e ridicularizando suas alegações de violência doméstica. As fotos não revelariam um olho roxo suficientemente claro para provar a violência física do marido, seu nariz não estaria lá tão inchado, a lesão no coro cabeludo não bastaria para provar que o tufo de cabelo no chão era mesmo de Heard e não extensões capilares.

As testemunhas em favor das alegações de Heard sobre o desequilíbrio do companheiro, que incluiam desde ex-amigos, sua maquiadora e até a ex-agente de Depp, teriam sido compradas. Quem assistiu esses testemunhos concordaria comigo que pessoas contratadas teriam dado depoimentos mais coesos.


O mais assustador é que para tomar o lado de Depp, seria necessário ir além das testemunhas e ignorar a performance do próprio Depp na sala de julgamento. Um homem que, sob o escrutínio da transmissão ao vivo, se permitiu ouvir depoimentos macabros fazendo desenhos e dando risadinhas, e respondeu com deboche e ironia aos questionamentos dos De fato, nem é preciso imaginar. Num vídeo exibido no julgamento, Heard chega na cozinha de manhã e encontra Depp fora de si, claramente alterado por alguma droga, bebendo vinho como se fosse água, discorrendo impetuosamente sobre coisas sem sentido e destruindo os armários ao seu redor. A índole violenta e imprevisível do ator fica evidente, e me deu calafrios.

O que assusta mais do que a resistência generalizada em reconhecer manchas no galã simpático que estampou as paredes de seus quartos adolescentes vinte anos atrás, é o fato de a opinião pública ter colocado Depp e Heard em pé de igualdade.

Tornaram-se comuns declarações nas seguintes linhas, por pessoas que não acompanharam o julgamento: "Duas estrelas de Hollywood estiveram casadas durante apenas alguns meses, durante os quais consumiram drogas, destruíram casas e se agrediram mutuamente".

Ora, Heard era uma atriz desconhecida quando se casou com o multimilionário e célebre Depp –ela com 24, ele com 47. Nunca houve igualdade entre os dois. O americano é dono de um fortuna imensurável, tem uma ilha privada nas Bahamas, uma vila na França, um castelo na Inglaterra, além de inúmeras coberturas em Los Angeles e uma rua inteira de casas na cidade. As estimativas mais ousadas colocam a fortuna de Heard, depois do divórcio que lhe rendeu US$ 7 milhões, em US$ 12 milhões, o que não significa nem 5% da de Depp.

Depp tem a seu dispor uma verdadeira máquina de assistentes, publicistas, além de seus fanáticos fãs que conduzem campanha de ridicularização de Heard nas mídias sociais. Não há nem mesmo igualdade física entre os dois —Depp é um homem bastante encorpado de 1,78, enquanto Heard uma mulher mirrada que pesava cerca de 50kg quando entrou com o pedido de divórcio e ordem de restrição para evitar contato do marido.

A desigualdade era constante no próprio julgamento. Se Depp podia dar seus longos depoimentos e respostas cínicas, com Heard era o oposto. Bastava uma continuação além da resposta para que a advogada de Depp pedisse para excluir dos registros o que a atriz havia dito. Pior, durante o questionamento de Heard, a advogada de Depp não lhe deixava terminar uma frase —os protestos constantes quebravam sua linha de raciocínio e protegiam Depp do que seria revelado nas respostas. Enquanto Heard era silenciada e sua advogada afogada em questões burocráticas legais, Depp ria com seus óculos escuros sentado em sua cadeira na corte.


A quantidade de brigas e conflitos relatados por ambas partes aponta para um relacionamento extremamente tóxico. E a personalidade de Heard, que se via como uma "mulher durona", que se orgulhava de não se vimitizar nem quando era claramente vítima de abuso, dá indicativos de que deveria haver sim agressões mútuas. Mas o diferencial vem num depoimento comovente de uma ex-amiga de Heard: "Ela não tinha muita auto-preservação."

Um diálogo gravado entre Depp e Heard revela a dinâmica do casal —a atriz é forçada a pedir desculpas por ter gritado com Depp na frente do filho do ator depois de ele ter derrubado vinho em cima dela pela terceira vez. Ora, um homem adulto se embebeda a ponto de desmaiar com um copo de vinho na mão na frente de seu filho, e quem deve pedir desculpas por assustar a criança é a madrasta que gritou?

Um colaborador de Depp revelou uma anedota que passou desapercebida, mas contribui para a compreensão da mentalidade do ator. Durante as gravações de suas cenas, ainda que esteja contracenando com outros atores, Depp ouve música alta num ponto de som no ouvido. Convenhamos, uma pessoa dessa não pode ser equilibrada.

Isto sem mencionar as mensagens trocadas por Depp com amigos (como o ator Paul Bettany) e funcionários falando em desejos de morte, violência sexual e "humilhação global" contra Heard. ​

Há inúmeros episódios protagonizados pelo "monstro" –palavra que o próprio Depp usava para se descrever depois de consumir álcool e drogas. Num deles, Depp perde a ponta do dedo num acidente mal explicado que ele tenta creditar a Heard, que teria jogado uma garrafa em sua direção numa briga. Nem médicos especialistas foram capazes de justificar que o corte sofrido pelo ator era consistente com o que ele descreve. As testemunhas de Depp, contudo, insistiam nunca terem visto Depp usando drogas, como seu técnico de som contratado que, entre relatos deslumbrados sobre as viagens espontâneas de jatinho que fazia à ilha de Depp, contou nunca ter visto Depp bêbado, pois a bebida não tinha nenhum efeito nele.

"Há uma vítima de abuso doméstico nesse julgamento e esse alguém não é a Sra. Heard", declarou uma das advogadas do ator. Como acreditar nisso? Depp justificou seu desinteresse na sala de julgamento com uma anedota —teria declarado à ex-mulher, por ocasião do divórcio pedido por ela, "você nunca mais verá os meus olhos". Seriam essas palavras de um homem que foi vítima de abuso ou antes de um predador que não aceita ter perdido sua presa?

Depois de tudo que se passou entre os dois –incluindo um processo contra o jornal britânico The Sun, no qual o juiz declarou que as acusações de abuso de Heard eram "substancialmente verdadeiras" –que conclusão tirar desse processo movido por Depp? Uma ação de indenização contra Heard por causa de um artigo de jornal no qual ela declara que teve um relacionamento abusivo –o que, ainda que metade de suas alegações sejam falsas, ela de fato teve.

Não parece mais do que uma manobra desesperada de uma estrela decadente, financeiramente quebrada, que perdeu o seu agente, as franquias que lhe garantiam salários milionários e claramente jogou a própria vida na lata do lixo.

Resta agora ver se o júri estava assistindo ao mesmo julgamento que eu. Enquanto eles deliberam, o despreocupado Depp faz aparições surpresa em shows de Jeff Beck pelo mundo. Nada mais interessa a Depp, protagonista inegável do espetáculo "Depp x Heard", que deu a Heard o papel de vilã megera.

Já Heard segue sob ataque, motivo de chacota mundial, vivendo o que havia declarado no fatídico artigo que deu origem a todo esse circo: "Dois anos atrás, me tornei uma figura pública representando abuso doméstico, e senti a força completa da ira da nossa cultura contra mulheres que ousam denunciar abusos".



https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/05/johnny-depp-fez-de-amber-heard-uma-vila-megera-em-juri-circense.shtml

terça-feira, 28 de setembro de 2021

'Isso não é apoio': reação ao machismo na política é seletiva, diz Tabata

 

'Isso não é apoio': reação ao machismo na política é seletiva, diz Tabata

Imagem: Luis Macedo/Câmara dos Deputados


Júlia Flores
De Universa
23/09/2021 04h00

"O caminho mais fácil para o homem que se vê sem respostas diante de questionamentos contundentes é deslegitimar a mulher que os faz", tuitou a deputada federal Tabata Amaral (PSB) ontem em defesa da senadora Simone Tebet (MDB). Durante a CPI da Covid na terça-feira (21), Simone foi chamada pelo ministro da Controladoria-Geral da União (CGU) Wagner Rosário de "descontrolada".


Para Tabata, Simone foi vítima de violência de gênero, um dos principais fatores que desmotivam as mulheres a entrar na política segundo ela. Ela mesma voltou a ser alvo de ameaças públicas na última semana quando o ator José de Abreu retuitou uma mensagem com uma ameaça contra ela.


Se o Zé de Abreu se sentiu à vontade para fazer aquele tuíte, é porque ele sabia que iam 'passar pano' para ele. Ele sabia que não perderia não perderia o apoio da esquerda, por exemplo.


Na opinião da deputada, os homens sofrem menos pressões dentro da política e são permitidos a "errar mais". Depois dos ataques, ela registrou um pedido de explicação contra o ator na Justiça, além de ter entrado com um pedido de inquérito policial contra os usuários que postaram as ameaças originalmente. A parlamentar, porém, só vê uma saída para o combate da violência de gênero na política — e não tem a ver com punições judiciais.


Venho de um lugar em que disputas ideológicas no Twitter fazem pouco sentido. Recebo muitas críticas por ter votado a favor da reforma da Previdência. Para mim, porém, esse foi um passo progressista. [...] Engraçado é perceber que outras sete pessoas do meu então partido votaram a favor da reforma, mas todas as críticas foram direcionadas a mim.


Esse machismo brasileiro, segundo Tabata, só vai ser combatido "quando a política e a Justiça deixarem de ser feitas apenas por homens". Universa conversou com a deputada a respeito. Confira:


UNIVERSA - A senhora se filiou esta semana a um novo partido, ao PSB (Partido Socialista Brasileiro). A mudança de legenda acarretará em mudanças ideológicas?

TABATA - A escolha de partido foi pautada pelas minhas bandeiras. Fui para um lugar em que eu acho que terei mais espaço para lutar pelos direitos das mulheres, pela pauta ambiental e por educação.


Podemos supor que no PSB teremos uma Tabata "mais feminista"?

A Tabata sempre foi feminista, né? Espero que no PSB eu tenha mais espaço, tanto em São Paulo, quanto nacionalmente, para avançar com as minhas pautas.


Faço essa pergunta porque a senhora costuma receber críticas ligadas ao fato de ter sido eleita sob a bandeira da mudança, e votado a favor de pautas governistas. Como a senhora avalia seu mandato até agora?

Venho de um lugar em que disputas ideológicas no Twitter fazem pouco sentido. Recebo muitas críticas por ter votado a favor da reforma da Previdência. Para mim, porém, esse foi um passo progressista. Sabia que, caso a reforma não fosse aprovada, os recursos para manter a Previdência tal estava iriam sair da Saúde e da Educação.


Engraçado é perceber que outras sete pessoas do meu então partido votaram a favor da reforma, mas todas as críticas foram direcionadas a mim.


A senhora acredita, então, que sofre mais críticas por ser mulher? Na última semana, inclusive, a senhora foi alvo de ataques com ameaças de violência física.

Quando uma mulher discorda, ela chama mais atenção. Eu incomodo muita gente quando trago pautas que estavam sendo ignoradas pelo campo progressista, quando digo que o caminho para termos uma escola de qualidade é o caminho da responsabilidade fiscal. O problema é que a reação é 100% machista.


O meu voto na reforma foi considerado 'uma desobediência de uma menina'; a intensidade das reações tem a ver com o fato de eu ser uma mulher jovem — e a forma também. Não foi a primeira e infelizmente não será a última vez que a minha integridade física foi ameaçada. Já fui ameaçada de morte, sou xingada todos os dias.


Uma coisa que precisa ser apontada é o fato de termos uma defesa feminista, antimachista, que ainda é muito seletiva. Parece que tudo bem você 'passar pano', ou não se manifestar quando você discorda do alvo ou gosta do agressor. Foi o que aconteceu no meu caso. 'Ah, discordo da Tabata, mas gosto do Zé de Abreu, então não vou falar nada'.


Como a senhora se sente com todos esses ataques?

Eu sinto medo, fico muito mal, mas eu tenho uma rede de apoio. A intenção dessas ameaças é me silenciar. Tento me lembrar a todo instante que, se estou incomodando, é porque meu trabalho está sendo feito de uma maneira importante. Além disso, faço terapia, cuido da minha saúde mental, conto com apoio de amigos e familiares.


Uma forma que eu encontrei de canalizar a mágoa é lutar para que tenhamos mais mulheres eleitas, para além de denunciar os casos.


A ameaça feita por uma celebridade reforça os altos índices de violência contra a mulher que enfrentamos no Brasil?

Se o Zé de Abreu se sentiu à vontade para fazer aquele tuite, é porque ele sabia que iam passar pano para ele. Ele sabia que não perderia o apoio da esquerda, por exemplo. Tenho muitas batalhas para enfrentar no Congresso, eu preciso ignorar um pouco desses ataques para poder trabalhar.


A ameaça vir de uma figura pública me lembrou que isso não deveria estar acontecendo. Claro que os ataques são, em parte, fruto do ambiente tóxico das redes sociais, mas também vêm da conivência de uma parte da esquerda com o ódio que é direcionado a mim. A gente entrou na Justiça cobrando uma satisfação, só que sendo bem sincera, já perdi a conta de quantas ações desse tipo já registrei; no meu caso, a maioria delas foi feita contra militantes de partidos da esquerda.


Se ele [Zé de Abreu] achasse que as lideranças de esquerda teriam um posicionamento contundente a respeito [da ameaça], ele não teria feito aquilo. Espero que a Justiça o lembre que você não pode ameaçar publicamente uma mulher só porque você discorda dela. Uma pessoa como essa deveria ter um papel numa novela? Eu acho que não.


A senadora Simone Tebet também sofreu ataques machistas na CPI da Covid esta semana. Mais um exemplo de que a violência de gênero na política é um problema que afeta mulheres de todos os partidos. Quais ações podem mudar esse cenário?

Muitas mulheres pensam duas, três vezes antes de atuar politicamente, de concorrer, de se posicionar. Os homens não, eles só falam. O jeito de combater isso é com ações efetivas. Recentemente a lei que tipifica a violência de gênero foi sancionada no Brasil.


Nós avançamos na legislação, mas também tem uma mudança cultural a ser feita — não sei como isso pode mudar com a política e a Justiça sendo feitas apenas por homens.


Se uma mulher tivesse feito o que o Zé de Abreu fez, ninguém aceitaria. Nós somos excluídas por muito menos. Não se perdoa nenhum tipo de erro da mulher. Dos homens se perdoam todos os tipos de crime.


Nesse contexto com Zé de Abreu, parte da esquerda a acusou de não se posicionar tão firmemente quando outra mulher é atacada, ou que usa a bandeira por conveniência. O que tem a dizer a respeito?

É mentira. Já me posicionei a favor de pessoas do PCdoB, do PT, do Novo, do PSL, a favor da senadora Simone Tebet, me posiciono sobre tudo o que acontece nCPI da Covid. A minha luta contra o machismo não é seletiva, inclusive já fui atacada por pessoas da esquerda quando defendi a Joyce Hasselman e mulheres do Novo. Já fui atacada nas redes sociais quando defendi a Dilma Rousseff, quando defendi a Marina Silva.


Você nunca vai ver um posicionamento meu dizendo 'discordo de fulana, mas apesar do posicionamento dela, quero prestar o meu apoio'. Isso não é apoio, eu não tenho medo de lutar contra o machismo, eu não tenho medo de me posicionar e de ser vista como aliada daquela pessoa. Me importo com o seu direito a ser respeitada.


Muitos atrelam a sua mudança de partido ao seu namorado. Inclusive, no campo de pesquisa no Google, um dos primeiros termos relacionados ao seu nome é o do seu namorado. Como você se sente quando tentam defini-la a tendo homens como referência?

No passado, eu me formei em Ciência Política e Astrofísica. Então eu competi por um bom tempo em Olimpíadas Científicas (muitas vezes a única mulher na equipe brasileira). Naquela época, eu era mais questionada do que meus colegas, mesmo sendo melhor do que muitos deles; não achava que era boa no que estava fazendo, achava que era sorte.


Hoje em dia, quando tentam justificar a minha atuação politica com base na minha aparência ou na trajetória de qualquer homem, eu só penso: 'Isso é machismo'. Talvez eu passe a vida inteira ouvindo que só estou ali por causa do meu rostinho, por causa de tal homem. Desde que eu saiba que isso não é verdade, a caminhada fica mais leve.


Tomo cuidado para que questões como 'deixa eu me provar um pouco mais, deixa eu ver como estava vestida' não subam à cabeça. Eu nunca vou ser o suficiente, sempre vou ser mais questionada, sempre vão tentar tirar meu mérito, dizer que eu não posso falar sobre algo.

 

A melhor resposta que eu posso dar é me cuidar, cuidar da minha saúde mental e lutar para que mais mulheres sejam eleitas.


Há um fenômeno que resume o que passa na cabeça de muitas mulheres em situações assim, a síndrome da impostora. A senhora enfrenta isso?

Com certeza. Como te disse, fui para cinco Olimpíadas de Ciência, fui medalhista em todas elas, cheguei a ser a primeira de todas as pessoas que competiam, e nunca me senti boa no que fazia. Sempre senti que era uma farsa. Sempre achava que eu tinha estudado menos, que eu merecia menos, que eu era menos inteligente. E não era verdade. Hoje luto para mudar esse pensamento, só que não estou 100% livre disso. Quantas vezes não fazem um comentário sobre a minha roupa, e então eu gosto menos da minha aparência? E passo a questionar a minha forma de me vestir?


Exigem de mim uma força e uma resiliência que não são exigidas dos homens; quantos homens na política brasileira não são responsáveis por mortes, por corrupção, e acordam e dormem todo dia tranquilamente? Quantos desses homens andam com escolta policial? Com medo? Quantos viram motivo de conversa nacional durante 24 horas?


Eu tendo um mandato sério e honesto, enfrento um inferno que as pessoas que fazem coisas erradas não enfrentam. Me pergunto: 'será que vou aguentar?' — e eu estou aguentando. Mas é importante ressaltar: as mulheres precisam ter muito mais coragem para entrar na política, porque não se pede o mesmo dos homens.


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https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2021/09/23/tabata-amaral-exigem-mais-resiliencia-e-forca-das-mulheres-na-politica.htm


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