quinta-feira, 26 de abril de 2018

"Aécio e o luto da esquerda", por Flávio Rangel


Ninguém acha que Aécio é uma ideia

Quando despontou na política, secretário particular de seu avô, Aécio Neves era o retrato perfeito do político jovem e moderno. Claramente destinado a uma carreira brilhante, não foi surpresa quando, sucessivamente, se fez deputado federal, presidente da Câmara, governador de estado, senador da República — e, quase, presidente da República.
Mas era tudo aparência. Não era jovem, era moleque. Parecia moderno, era modernoso. Não encarnava o novo, mas o novidadeiro. Não era inteligente, era calculista. Não tinha ambição, tinha ganância. Não era interessado, e, sim, interesseiro. Parecia altivo, era vaidoso.
À fortuna da família, preferiu as gorjetas dos arrivistas, e trocou a estirpe de Tancredo Neves pela laia de Joesley Batista. Herdeiro da melhor tradição, escolheu ser representante do que há de mais atrasado. Desonrou a si mesmo, ao sobrenome e ao país.
Como o Dorian Gray de Oscar Wilde, Aécio manteve a aparência jovem e impoluta durante anos, enquanto seu caráter, oculto pela hipocrisia, apodrecia em silêncio. Como Gray, assassinou-se a si mesmo — e expôs sua decrepitude em praça pública.
Muitos políticos, talvez a maioria, têm excelentes motivos para tentar salvar o ex-presidente do PSDB, mas, a seis meses da eleição, ninguém o fará. Infinitamente mais digno e inteligente do que o neto, Tancredo dizia que político acompanha o féretro até a beira da sepultura, mas não entra na cova com o defunto.
Aécio está morto e só. E não deixa saudades.
A reação à aceitação da denúncia é emblemática. Ninguém reclamou de falta de provas, nem que eleição sem Aécio é fraude. Ninguém vandalizou casa de ministro do Supremo, nem acampou em frente à casa do réu, nem organizou coro de bom dia. Ninguém incluiu “Aécio” em seu nome, nem afirmou que ele é guerreiro do povo brasileiro. Ninguém acha que Aécio é uma ideia.
Os eleitores de Aécio, cientes de que foram traídos, não lhe dedicam amor, mas desprezo, e a esmagadora maioria comemora que mais um criminoso será punido. Uma minoria, cujos gritos de “e o Aécio?” cessaram, está atônita, e de luto, pois a morte de Aécio inviabiliza a narrativa do “golpe”.
A cada passo, torna-se mais desconfortável defender Lula. Ignora-se a “direita” na cadeia. Descarta-se um oceano de provas. Defende-se o fim da Ficha Limpa. Não se enxerga que Lula foi dos últimos a ser presos, o único a ficar solto até a segunda instância. Não se percebe que o Supremo quase o libertou. Combate-se a prisão na segunda instância. Joga-se fora o ideal de igualdade, razão de ser da esquerda há 200 anos. Faz-se que não se vê Paulo Preto na cadeia, nem aonde isso vai dar. E eis Aécio réu.
A narrativa mais uma vez se adapta: Aécio é um boi de piranha, a denúncia serve para dar a impressão de que a lei é para todos, mas, na verdade, é só para inglês ver: ele jamais será condenado. A cada nova etapa, mais intrincada e espaventosa se torna a teoria da conspiração. Para calar a própria consciência, que brada “acorda para a realidade, companheiro, Lula é culpado!”, é preciso gritar “Lula livre” e xingar os outros de fascistas a cada minuto.
Mas uma hora a realidade se impõe. Quanto maior for o esforço para ignorá-la, maior será a ressaca.

sábado, 14 de abril de 2018

"Lula atrás das grades", por Mario Vargas Llosa

Graças à coragem de juízes e promotores está se perseguindo o grande inimigo latino: a corrupção
A entrada de Lula, ex-presidente do Brasil, em uma prisão de Curitiba para cumprir uma pena de doze anos de cadeia por corrupção deu origem a grandes protestos organizados pelo Partido dos Trabalhadores e homenagens de governos latino-americanos tão pouco democráticos como os da Venezuela e da Nicarágua, o que era previsível. Mas menos do que o fato de muita gente honesta, socialistas, social-democratas e até liberais considerarem que foi cometida uma injustiça contra um ex-mandatário que se preocupou muito em combater a pobreza e realizou a proeza de tirar, ao que parece, aproximadamente 30 milhões de brasileiros da miséria quando esteve no poder.
Os que pensam assim estão convencidos, pelo visto, de que ser um bom governante tem a ver somente com realizar políticas sociais avançadas e que isso o exonera de cumprir as leis e agir com probidade. Porque Lula não foi preso pelas boas coisas que fez durante seu governo, mas pelas ruins, e entre essas se encontra, por exemplo, a gigantesca corrupção na empresa estatal Petrobras e suas empreiteiras que custou à sofrida população brasileira nada menos do que dez bilhões de reais (desses, 7 bilhões em propinas).
Quem pensa tão bem de Lula, aliás, se esquece do feio papel de leva e traz que ele representou como emissário e cúmplice em várias operações da Odebrecht – no Peru, entre outros países – corrompendo com milhões de dólares presidentes e ministros para que favorecessem a transnacional com bilionários contratos de obras públicas.
É por essa razão e outros casos que Lula tem não só um, mas sete processos por corrupção em andamento e que dezenas de seus colaboradores mais próximos durante seu governo, como João Vaccari Neto e José Dirceu, seu chefe de Gabinete, tenham sido condenados a longas penas de prisão por roubos, esquemas ilícitos e outras operações criminosas. Entre as últimas acusações que pendem sobre sua cabeça está a de ter recebido da construtora OAS, em troca de contratos públicos, um apartamento de três andares em Guarujá.
Os protestos pela prisão de Lula não levam em consideração que, desde que ocorreu a grande mobilização popular contra a corrupção que ameaçava asfixiar todo o Brasil, e em grande parte graças à coragem dos juízes e promotores liderados por Sérgio Moro, juiz federal de Curitiba, centenas de políticos, empresários, funcionários e banqueiros foram presos ou estão sendo investigados e têm processos abertos. Mais de cento e oitenta já foram condenados e várias dezenas deles o serão em um futuro próximo.
Jamais algo parecido havia ocorrido na história da América Latina: um levante popular, apoiado por todos os setores sociais que, partindo de São Paulo, se estendeu depois por todo o país, não contra uma empresa, um político, mas contra a desonestidade, a enganação, os roubos, as propinas, toda a enorme corrupção que gangrenava as instituições, o comércio, a indústria, a atividade política, em todo o país. Um movimento popular cuja meta não era a revolução socialista e derrubar um governo, mas a regeneração da democracia, que as leis deixassem de ser coisa sem importância e fossem verdadeiramente aplicadas, a todos por igual, ricos e pobres, poderosos e pessoas comuns.
O extraordinário é que esse movimento plural encontrou juízes e promotores como Sérgio Moro, que, encorajados por essa mobilização, lhe deram uma via judicial, investigando, denunciando, enviando à prisão diversos executivos, comerciantes, industriais, políticos, autoridades, homens e mulheres de todas as condições, mostrando que é realizável, que qualquer país pode fazê-lo, que a decência e a honestidade são possíveis também no Terceiro Mundo se existe a vontade e o apoio popular para isso. Cito sempre Sérgio Moro, mas seu caso não é único, nesses últimos anos vimos no Brasil como seu exemplo foi seguido por incontáveis juízes e promotores que se atreveram a enfrentar os supostos intocáveis, aplicando a lei e devolvendo pouco a pouco ao povo brasileiro uma confiança na legalidade e na liberdade que quase havia perdido.
O ex-presidente teve acesso a todos os direitos de defesa que existem em um país democrático
Há muitos brasileiros admiráveis; grandes escritores como Machado de Assis, Guimarães Rosa e minha querida amiga Nélida Piñon; políticos como Fernando Henrique Cardoso, que, durante sua presidência, salvou a economia brasileira da hecatombe e fez um modelo de governo democrático, sem jamais ser acusado de uma ação digna de punição; e atletas e esportistas cujos nomes correram o mundo. Mas, se eu precisasse escolher um deles como modelo exemplar ao restante do planeta, não hesitaria um segundo em eleger Sérgio Moro, esse modesto advogado natural do Paraná que, após se formar em advocacia, entrou na magistratura na oposição em 1996. Como já confessou, o que aconteceu na Itália nos anos noventa, a famosa Operação Mãos Limpas, lhe deu as ideias e o entusiasmo necessário para combater a corrupção em seu país, utilizando instrumentos parecidos aos dos juízes italianos da época, ou seja, a prisão preventiva, a delação premiada em troca da redução da pena e a colaboração da imprensa. Tentaram corrompê-lo, obviamente, e sem dúvida é um milagre que ainda esteja vivo, em um país onde os assassinatos políticos infelizmente não são uma exceção. Mas lá está, fazendo parte do que vem sendo uma verdadeira, apesar de ninguém ainda a ter nomeado assim, revolução silenciosa: o retorno da legalidade, o império da lei, em uma sociedade que a corrupção generalizada estava desintegrando e impedindo-o de passar de ser o “grande país do futuro” que sempre foi a ser o grande país do presente.
A decência e a honestidade são possíveis também no Terceiro Mundo
O grande inimigo do progresso latino-americano é a corrupção. Ela faz estragos nos governos de direita e esquerda e um enorme número de latino-americanos chegou a se convencer de que ela é inevitável, algo como os fenômenos naturais contra os quais não há defesa: os terremotos, as tempestades, os raios. Mas a verdade é que a defesa existe e justamente o Brasil está demonstrando que é possível combater a corrupção, se existirem juízes e promotores corajosos e responsáveis e, claro, uma opinião pública e imprensa que os apoiem.
Por isso é bom, para a América Latina, que homens como Marcelo Odebrecht e Lula tenham sido presos após ser processados, recebendo todos os direitos de defesa que existem em um país democrático. É muito importante mostrar em termos práticos que a Justiça é igual para todos, os pobres diabos do povo que são a imensa maioria, e os poderosos que estão no topo graças ao seu dinheiro e seus cargos. E são justamente esses últimos que têm maior obrigação moral de obedecer às leis e mostrar, em sua vida diária, que não é preciso transgredi-las para ocupar as posições de prestígio e poder que obtiveram, que elas são possíveis dentro da legalidade. É a única forma de uma sociedade acreditar nas instituições, repelir o apocalipse e as fantasias utópicas, sustentar a democracia e viver com a sensação de que as leis existem para protegê-la e humanizá-la cada dia mais.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

"A Nova Saúva", por Cora Rónai


RI Rio de Janeiro (RJ) 22/06/2016 - Retrato da colunista Cora Ronai. Foto: Leo Martins / Agencia O Globo Foto: Leo Martins / Agência O GloboO antipetismo é o novo bicho papão dos intelectuais de esquerda. Ele acaba de ser comparado, por um amigo culto, inteligente e a quem respeito muito, ao antissemitismo na Alemanha de Hitler. Só posso atribuir a comparação ao calor do momento — vastas emoções, pensamentos imperfeitos. Mas acho que, em algum momento do futuro, serenados os ânimos, valeria à esquerda procurar, com honestidade, as origens desse suposto antipetismo, até porque é difícil encontrar a cura para um mal cuja causa se desconhece. Digo “suposto” não porque ele não exista, mas porque, da forma como vem sendo colocado, ele mais parece um movimento organizado, um conluio de vermes, o autêntico oposto de “democracia” — seja lá o que entenda por democracia alguém que defende o PT.



Ao contrário de tanta gente que denuncia o antipetismo, não tenho a menor pretensão de falar “pelo povo”, “pelos brasileiros”, “por todos nós”. Falo única e exclusivamente por mim, e já é responsabilidade que me baste. Eu detesto o PT. E detesto o PT pelo que o PT é, pelo que o PT fez e continua fazendo, e pela forma como o PT se comporta.

Não há um único fator externo ao PT embutido no meu sentimento.

É lógico que a sua intensidade tem a ver com o fato de que este é o partido que estava no poder até ontem: a crise que vivemos é, em maior ou menor grau, o resultado das suas escolhas e das suas ações. Tem a ver também com a hipocrisia do partido, que sempre se apresentou como alternativa ética aos demais, e foi incapaz de um simples pedido de desculpas à população quando se viu no centro do maior escândalo de corrupção já apurado no país.

E olhem que a corrupção do PT é, para mim, o menor dos seus males — ainda que ele a tenha elevado à categoria de arte. Meu maior problema com o PT, e com a esquerda como um todo, é a sua incapacidade de diálogo, a sua aversão ao contraditório e, sobretudo, a sua militância arrogante e patrulheira, que exige que todos se posicionem exatamente da mesma forma. Já estive em países de pensamento único e não gostei.

Há movimentos de direita igualmente obtusos e intolerantes, mas de modo geral eles se apresentam exatamente como são, toscos e primitivos. A sua embalagem é mais sincera; eles não pretendem ser “bons”, e nem falam do alto de um pedestal de virtudes.

Um dia, ainda naquela remota eleição que Lula disputou com Collor, eu estava na rua com o Millôr, e comentei com ele que, pelo visto, o Lula ia ganhar — todos os carros que passavam com adesivos eram PT. O Millôr olhou, olhou, e me disse para prestar mais atenção: a maioria dos carros simplesmente não tinha adesivos.

— Sabe o que isso significa, né?

Eu sabia. Usar um adesivo do Collor, pelo menos na Zona Sul do Rio de Janeiro, era se arriscar a ter o carro arranhado e enfrentar militantes petistas raivosos. Eu tinha passado por isso com o adesivo do Covas que havia usado no primeiro turno.

Collor ganhou a eleição sem adesivos, não exatamente com “votos envergonhados”, como o PT disse à época, mas com votos intimidados.

Lula, um militante intolerante ele também, nunca desceu do palanque. Passou todos os seus anos de presidência, e mais os da Dilma, como vítima de um complô das elites, insistindo na divisão do nós contra eles: ricos contra pobres, brancos de olhos azuis contra negros, todos contra nordestinos.

Lula, como todos sabem, é uma mulher negra da periferia; agora, ainda por cima, encarcerada.

Um candidato pode ser o que quiser, mas um presidente não. O presidente de todos os brasileiros não pode dizer que quem não votou no seu partido odeia pobres e tem horror de ver os filhos dos pobres na universidade, porque além de divisiva, essa afirmação é extremamente ofensiva.

Há uma esquerda bem intencionada que talvez não tenha percebido o quanto de ódio havia, e ainda há, nesse discurso, porque ele a põe no pedestal ao qual ela imagina ter direito e massageia o seu ego. Ele reafirma a sua superioridade moral e apenas põe os inferiores no seu devido lugar.

Mas para quem não votou no PT — e que não é necessariamente de direita, de extrema direita ou, como está na moda, “fascista” — cada declaração dessas soou como um insulto. Durante 13 anos, os 50 milhões de eleitores que não votaram em Lula ou Dilma, e que, em sua vasta maioria, são apenas brasileiros como os demais brasileiros, ouviram que eram péssimas pessoas. Qualquer política de estado era invariavelmente apresentada como um desafio à sua intrínseca maldade: apesar de vocês, que não votam no PT, os pobres vão ter saúde, vão estudar, vão ter moradia e dignidade.

Como se qualquer ser humano, por não petista que seja, pudesse ser contra isso.

Cinquenta milhões de eleitores foram sistematicamente agredidos e desumanizados pela retórica de Lula e pelo “ódio do bem” da esquerda; agora não suportam o PT.

Mas por que será, não é mesmo?

https://oglobo.globo.com/cultura/a-nova-sauva-22580828

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

"Parei de buscar explicações", por Lais Souza



Já se foram quatro anos desde o meu acidente em Salt Lake City, nos Estados Unidos. No começo, perguntei-me muito sobre o que aconteceu. Questionava Deus: por que não me deixou os movimentos de uma mão, ou de um dedo sequer? Fiquei me massacrando. Mas não adiantou, não encontrei a saída, era pior, uma perda de tempo. O começo foi bem complicado, porque saí de casa aos 10 anos para viver o sonho de atleta, e já não tinha tanta convivência com meus familiares. De repente volto para Ribeirão Preto, sem movimento nenhum, necessitando de tudo e precisando de uma adaptação para mim e para toda a família. Eu sempre fui muito independente, tinha minha casa, pagava minhas contas, tinha meus relacionamentos. E de repente eu me vi de fralda, com a minha mãe, como se tivesse voltado a ser criança.
Parei de buscar explicações, e muita coisa mudou em minha vida. Meu jeito de pensar, de ver as coisas, a relação com minha família. Hoje a pior coisa que poderia me acontecer seria perder meus pais. Mil vezes pior que o meu acidente. Minha mãe é uma guerreira, demonstra uma força que não sei se eu teria. Acho que estou bem mais sensível do que na época em que andava. Quando vejo uma criança passando fome ou problemas parecidos com o meu, isso me sensibiliza muito. Todos os dias me contam histórias nas redes sociais e percebo que às vezes meu problema nem é tão grande. Mas quase não choro, acho isso ruim. Cresci na seleção de ginástica com treinadores rigorosos, sofri muito para treinar, com a canela machucada, pé quebrado, tive de aprender a lidar com isso, adquiri um lado meio “cavalo”.
Ando mais séria também, em relação a tudo, à saúde, aos problemas. Acho que estou me sentindo velha, tenho quase 30 anos! Mas tem dias em que estou como antes, brincalhona. Às vezes estou forte, às vezes estou “franga”, depende, mais paciente, mas às vezes estouro, inevitavelmente. Não sou de ficar gritando muito ou tomar decisões loucas, a não ser que já estejam na minha cabeça há muito tempo. Às vezes acordo e acho que vou me mexer normalmente. Isso frustra… Quando converso, tenho a nítida sensação de que estou gesticulando. Pode ser que em algum momento eu me surpreenda e realmente me mexa. 
Preencho meu tempo com meu trabalho, faço palestras e eventos, minha principal fonte de renda. A fisioterapia constante me faz sentir atleta, porque eu sou atleta ainda. Canso do mesmo jeito, faço um esforço parecido, sinto dor muscular, aquela sensação de vitória quando consigo completar um exercício novo ou quando apresento sensibilidade em algum lugar. Depois do acidente, achei que não fosse mais me surpreender, sentir adrenalina, mas a vida me mostrou que isso ainda é possível. Tenho sensibilidade embaixo do pé, na barriga, nas costas e em alguns pontos da mão. O músculo do meu bíceps também vibra muito nos exercícios, isso é novo. Eu me sinto mais forte, mas vou devagar.
Consigo viver normalmente dentro das minhas limitações. Para ser sincera, o que mais sinto falta é de sexo. Sempre fui uma pessoa muito física, estava sempre em movimento, liberando adrenalina. Hoje não consigo fazer mais nada, é muito difícil. Aliás, minha sexualidade foi muito comentada, não chegou a me incomodar, porque a minha família, que realmente importa, já sabia. Nunca escondi nada da minha mãe. Logo contei para ela, expliquei o que eu estava sentindo e fomos nos adaptando. Quando saiu a notícia (de que tinha uma namorada), eu pensei: Caramba, quebrei o pescoço, estou quase morrendo, e as pessoas estão preocupadas se eu gosto de homem ou mulher, em pleno século XXI?
Agora moro em Ribeirão Preto, com minha mãe, num pequeno apartamento, e minha rotina começa depois das 9h30. Não gosto de acordar cedo, cuido da minha higiene, tomo banho, almoço, depois treino, vou à faculdade (de psicologia) e tento sair com minhas amigas, uma delas a Daiane dos Santos (também ginasta), com quem tenho muito contato. Nessa fase, quando vejo uma prova de ginástica, não sinto tristeza, mas saudade. Hoje olho para o acidente de uma forma mais serena - nunca voltei ao local, mas pretendo, seria legal ver neve de novo. E eu teria a chance de esquiar, sentadinha, num trenó adaptado. Espero que não tenha nenhum trauma.
Depoimento colhido por Silvio Nascimento e Luiz Castro 
Foto Felipe Cotrim/VEJA.com

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Editorial do Globo: A maior derrota de Lula

Sentença do TRF-4 rivaliza com o fracasso do petista nas eleições de 89, 94 e 98


A confirmação da condenação de Lula em segunda instância, por corrupção e lavagem de dinheiro no caso do tríplex do Guarujá, não encerra a carreira política do ex-presidente, porém é um revés de gigantesca magnitude. A unanimidade dos três votos, muito técnicos, dados pelos desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), na aceitação do veredicto do juiz Sergio Moro, de Curitiba, da Lava-Jato, ainda permite pelo menos um recurso. Mas, por certamente retirá-lo das eleições de outubro, por meio da Lei da Ficha Limpa, e mantê-lo inelegível por oito anos — Lula só recupera os direitos políticos ao completar 81 anos —, a sentença é a maior derrota da vida do ex-presidente, rivalizando com o fracasso nas disputas pela Presidência da República com Fernando Collor (1989), em segundo turno, e as duas perdas, em primeiro, para FH (94 e 98).

A condenação de Porto Alegre é mais aguda por não ser política, mas se tratar de punição criminal por corrupção e lavagem de dinheiro, algo nunca antes ocorrido com um ex-presidente da República. Embora a militância bata bumbos para amplificar a tese sectária de que seu líder foi vítima de um tribunal de exceção — finge-se não saber o que é um verdadeiro tribunal de exceção —, a realidade é bem outra. Luiz Inácio Lula da Silva teve o direito de defesa respeitado, como tem acontecido nos demais processos na Lava-Jato. Mas o sectarismo rejeita qualquer argumento objetivo, e até formulou a tese autoritária de que o julgamento só seria legítimo se absolvesse Lula.

Também em Porto Alegre, a defesa do ex-presidente, feita pelo advogado Cristiano Zanin, manteve o tom da politização: todo o processo é repleto de erros, cheio de evidências de que não importam provas, com a intenção deliberada de condenar o grande líder popular, para retirá-lo das urnas de outubro. Ou seja, a defesa de Lula continua a ser feita para animar a militância, não com a finalidade de convencer juízes. Parece considerar inevitável a condenação final de Lula neste e em outros processos, e por isso trata de ajudar na construção da imagem de um mártir das causas populares, conveniente para quem não sabe fazer outra coisa na vida a não ser política.

Lula teve a condenação confirmada, por votos dos três desembargadores do TRF-4, cheios de argumentos objetivos e provas que desmontam posições da defesa — a partir das mais de 400 páginas do detalhado voto do relator João Pedro Gebran Neto, o primeiro a sancionar o veredicto de Sergio Moro. Houve até acréscimo da pena de Lula, por Gebran, de nove anos e meio para 12 anos e um mês de prisão, sob o correto argumento de que o cargo de Lula é um agravante. Proposta aceita pelos dois outros juízes.

No relatório, são citados os entendimentos entre o presidente da OAS, Léo Pinheiro, Lula e Marisa Letícia, diretamente ou por meio de representantes do PT, como João Vaccari Neto, também ainda preso, em torno do imóvel do Guarujá. Da mesma forma que aconteceu nas transações de corrupção com a Odebrecht, o trânsito do dinheiro sujo era acompanhado por uma conta corrente, na qual, no caso da OAS, o custo do tríplex e das obras de melhorias no imóvel foi debitado de propinas geradas em negócios da empreiteira com a Petrobras, de óbvio conhecimento de Lula e companheiros. O relator reservou um capítulo do voto para descrever como, por exemplo, Paulo Roberto Costa, “Paulinho”, foi colocado na diretoria da Petrobras por interferência direta de Lula, para atuar, com outros, no esquema de geração de propinas em contratos com empreiteiras amigas.

À medida que este processo tramitava — há outros, como o do sítio de Atibaia —, era fermentada na militância, também fora do país, a falsa constatação, alardeada pelo próprio Lula, de que ele era processado sem provas. Balela. Se forem analisados os autos sem as lentes do viés político e ideológico, encontra-se o passo a passo de como um singelo apartamento na orla do Guarujá, construído e comercializado por meio de uma cooperativa de bancários (Bancoop), foi adquirido em nome de Marisa Letícia, mulher de Lula, e, depois, com o marido no poder, terminou metamorfoseado no tríplex do prédio.

As provas podem ser consultadas. Mas a militância não se interessa por elas, prefere manter a fé no líder carismático. Existe documento rasurado que atesta a tentativa de encobrir o upgrade do imóvel, de um apartamento simples para um tríplex. Também há registros de imagens de Lula em visita ao novo imóvel, na companhia do presidente da empreiteira OAS, Léo Pinheiro, ainda preso, que se incumbiu de concluir o prédio depois que a Bancoop quebrou e não finalizou a obra. Por que tanta benemerência a Lula? Votos dos três desembargadores de Porto Alegre explicam em detalhes. Além de Gebran, Leandro Paulsen, revisor do relatório de João Pedro Gebran, e Victor Laus.

Em 2010, O GLOBO noticiou que a família Lula da Silva tinha um imóvel no prédio, fato confirmado pela Presidência. Houve visitas da família ao tríplex do prédio Solaris, ex-Mar Cantábrico, na época da Bancoop. Obras foram contratadas para atender ao desejo dos futuros moradores, mesmo que, formalmente, o imóvel continuasse, na escritura, sendo da OAS. Por quê? O próprio Léo Pinheiro depôs que a dissimulação foi pedida em nome de Lula. Três andares requeriam um elevador interno, e assim foi feito. O imóvel também recebeu uma nova e moderna cozinha.

Outros calvários jurídicos aguardam Lula. Um deles, o sítio de Atibaia, também próximo à cidade de São Paulo, mas no interior. Talvez uma herança do tempo de militância sindical na juventude, Lula não gosta de aparecer em escrituras de imóveis que usufrui. Caso deste sítio, em que costumava passar fins de semana e que terminou preparado por empreiteiras — Odebrecht e OAS —, para abrigar o ex-presidente nos momentos de lazer. Piscina, adega etc. Este é outro processo, mas há uma conexão dele com o do tríplex que condenou o ex-presidente em segunda instância: as cozinhas dos dois imóveis foram compradas pela OAS no mesmo fornecedor. Não faltam mesmo provas.

Do julgamento no TRF-4, fica a frase do procurador Maurício Gotardo Gerum, representante, no julgamento, do Ministério Público Federal:

— Lamentavelmente, Lula se corrompeu.


https://oglobo.globo.com/opiniao/editorial-maior-derrota-de-lula-22325712 

terça-feira, 17 de outubro de 2017

88 anos de Fernandona, por Michelle Licory

16.10.2017  /  13:46

Fernanda Montenegro: “tomo de um a dois banhos por dia, vou ao dentista e boto um creminho na pele. Mas não faço plástica!”



Nesta segunda-feira, Fernanda Montenegro completa 88 anos, em plena atividade, prestes a estrear mais uma novela, “O Outro Lado do Paraíso”. “Nunca pensei em chegar a essa idade. Quando eu era jovem, 88 parecia ser igual a ter mil anos de vida”. A veterana, ícone maior entre os atores brasileiros, mostrou toda sua compreensão com os mais inexperientes ao dizer que não dá conselhos – “Deus me livre” – e que “o jovem ainda não passou pela prova de fogo, não tem bagagem, então não dá pra exigir uma conversa na mesma onda. Ou ele vai se humilhar ou se defender. É natural”. Isso e muito, muito mais:
“Não tenho perfil para cadeira de balanço”
Para começar com a pergunta mais óbvia: será que Fernanda pensa em aposentadoria? “A gente até pode achar que não aguenta, mas vai fazer o que? Essa rotina te exige acordar e cantar. Você acorda e canta. Não tenho perfil para cadeira de balanço. Essa vida de artista é tão intensa que a gente vicia no estresse. Faz parte. Não é como um bancário, que pede a Deus sua aposentadoria, ou pra que chegue o sábado e domingo pra poder ficar em casa. A não ser que ele tenha uma vocação louca para aquilo e termine dono do banco… Todo dia o ator tem que mostrar sua criação, sua criatividade. É diferente”.
“Isso é filosofia barata, mas real”
Por ser vista como uma referência, deve ser boa de conselhos… “Não sou de dar conselhos na minha vida. Se me pedem, dou. Mas não fico em cima das pessoas ensinando a viver. Deus me livre. Cada um tem seu caminho. Se houver uma conversa… Mas sou incapaz de ficar: ‘olha, não vá fazer isso, ou você saber o que vai acontecer…’ Deixa a pessoa viver a experiência que quer, sem conselhos”. Perguntamos se ela se arrepende de algo. “Acho que vivi a minha vida plenamente. Não me arrependo de nada. Tudo vai acumulando conhecimento. É frase feita, mas é verdade. Mesmo as coisas mais duras e desagradáveis e dolorosas com o passar do tempo você vê que ter dobrado aquela esquina, quando você pensava ‘puxa, perdi a minha vida’, depois percebe que se não tivesse dobrado não estava agora dobrando essa outra esquina que está te salvando. Isso é filosofia barata, mas real”.
“Tomo de um a dois banhos por dia, vou ao dentista e boto um creminho na pele”
Qual é a vaidade de Fernanda Montenegro? “Minha vaidade é cuidar da minha saúde sem me privar das coisas que quero comer. Mas já comi mais do que como hoje. A vida inteira jantei muito porque a gente fazia teatro e saía depois de três atos – peças enormes – morrendo de fome. Mas a idade te põe à prova. Fora isso, tomo de um a dois banhos por dia, vou ao dentista e boto um creminho na pele. Mas não faço plástica”.
“Chega uma hora que não tem papel”
Por quê? “Uma coisa bonita no ator de teatro – televisão é outra zona – é que você vai envelhecendo e tendo papeis para sua idade. O problema da TV é que o ator quanto mais se opera, mais ele fica deslocado do seu tempo de vida, da sua estrutura física, por mais ginástica que faça, compreende? Chega uma hora que não tem papel: não é jovem pra fazer personagem jovem, nem é meia-idade porque tirou todas as possíveis rugas e papos que poderia ter. E também nunca vai ter idade de chegar ao extremo número de anos… Não tem cara para idade nenhuma. A pessoa vai ficando indefinida”.
“Não dá pra exigir uma conversa na mesma onda. Ou ele vai se humilhar ou se defender”
Para toda regra, exceção. “Essa nova novela tem um monte de ator veterano [Nathalia Timberg, Lima Duarte, Marieta Severo, Juca de Oliveira, Laura Cardoso] em papeis ótimos, complexos, difíceis. E nós todos vamos tentar fazer o melhor da gente. O jovem ainda não passou pela prova de fogo, não tem bagagem, então não dá pra exigir uma conversa na mesma onda. Ou ele vai se humilhar ou se defender. É natural que depois de… Estou nessa vida há 70 anos. Aí já sobrevivi com a minha geração. Já trabalhei muito com Nathalia, Lima… Nunca pensei em chegar a essa idade. Quando eu era nova, 88 parecia ser igual a ter mil anos de vida”.
“Se quer ser ator de TV, não perca tempo no teatro” 
“Os mais jovens vêm pra essa carreira pra brilhar. Mas quando comecei não tinha TV dessa forma. Hoje em dia está muito dividido. Você pode querer fazer teatro, cinema e TV, tudo junto, mas sou de uma época em que o grande sonho era o palco. Hoje querem ser famosos. Antigamente, quando eu ia dar palestra pra jovem, falava mais de teatro que de TV. Hoje em dia não. Hoje eu digo: se quer ser ator de TV, não perca tempo no teatro. O teatro é lento, vai exigir anos de entrega. TV, não. TV é eletrônica. Se você não acertar, repete. A hora que você fizer quase bom, se tá na hora de fechar o capítulo, para ali. Não tem nada a ver com o mundo artesanal do teatro”.
“Se uma atriz jovem contracenando comigo precisar, eu espero pingarem a lágrima”
“Pode ser bem sucedido mesmo sem talento. O processo eletrônico forja o que quiser em cima do ser humano pra resultar no caminho que aquela personagem e aquela novela exigem. Se não tem lágrima, para e pinga a gota no olho. Não precisa de dois meses de ensaio. E não digo como algo inferior porque não sou ninguém pra julgar. É um processo de avanço dentro de uma ambição tecnológica. Tenho paciência, sim: se uma atriz jovem contracenando comigo precisar, eu espero pingarem a lágrima para gravar. Tenho que entender. Mas no palco a plateia não espera. Certamente vai vaiar. E o teatro não vai morrer nunca. De alguma forma, vai sobreviver”.
“É a missão dela fazer o bem. É também uma condenação”
Pra não dizer que a gente não falou da Mercedes de “O Outro Lado do Paraíso”… Sobre comparações com seu papel em outra novela, “Riacho Doce”, ela disse: “Em ‘Riacho Doce’, a personagem era poderosa, ativista dentro do misticismo dela. A Mercedes, não. Ela é uma sombra, já está do outro lado. É frágil. As vozes deixam ela acordada. Tem que fazer o que as vozes mandam, que é socorrer o próximo. É a missão dela fazer o bem. É também uma condenação. Está aqui na Terra pra isso”. Como é a fé da Fernanda? “Não sou fanática, mas tenho meu lado místico. Só não ouço vozes nem tenho nenhum privilégio de mediunidade. Eu duvido, mas Santo Agostinho diz que se você duvida, já crê. Acho essa frase muito confortadora”. (por Michelle Licory)

terça-feira, 26 de setembro de 2017

A Carta de Palocci - 26/9/2017

"Até quando vamos fingir na auto-proclamação do "homem mais honesto do país" enquanto os presentes, os sítios, os apartamentos e até o prédio do instituto (!!) são atribuídos à Dona Marisa?"

"Afinal, somos um partido político sob a liderança de pessoas de carne e osso ou somos uma seita guiada por uma pretensa divindade?"

Nada como um petista histórico jogando no ventilador toda a merda que presenciou e de que foi artífice nestes últimos anos. Com sua confissão Palocci destrói a pauladas o mito de Lula e do lulopetismo, cuja defesa continua sendo feita pelos idiotas.

Aquela porcaria que se encontra hoje na presidência do PT mugiu uma resposta. Não cabe comentá-la. À uma privada usada não se dá a palavra; se dá a DESCARGA.

Lula, acabou.




(Fotos em alta resolução)

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