quinta-feira, 28 de março de 2019

“Nana Caymmi ataca Chico, Gil e Caetano e não quer netas em show de pagode”


Cantora lança novo disco, defende Bolsonaro, reclama da Bahia e diz irritar pássaros ao cantar ópera

Luiz Fernando Vianna

RIO DE JANEIRO
Nana Caymmi não lançava CD desde 2009. Ao completar 78 anos, em 29 de abril, terá realizado mais dois —“Nana Caymmi Canta Tito Madi”, que sai agora pela Biscoito Fino, e um com músicas de Tom Jobim, acompanhada de orquestra, que ela gravará para o Sesc a partir do próximo dia 15.
Parece o reaquecimento da carreira de uma das principais intérpretes do país, mas Nana diz que não é bem assim.
“Estou fazendo uma despedida sem ir embora. Saída à francesa. A vida que me resta, de uma senhora, quero viver em paz”, afirma. “Acordei pro mundo: não tenho muito tempo. Quero ouvir o que eu não podia ouvir. Criei três filhos sozinha. O pai ficou na Venezuela, fez outra família.”
Quer ouvir óperas, prazer solitário na família, pois nem Dorival Caymmi, amante de música clássica, gostava de canto lírico. A soprano Renata Tebaldi é sua paixão maior.
“Mostrei pra Dori [seu irmão] e ele ficou de pau na mão. Falei: isso aí é que é cantar!”, anima-se, mas sem saber para quem deixará seus discos do gênero. “Minhas filhas são ignorantes em ópera. Nunca tive um marido que gostasse. Uns merdas.” Ela não confirma se foram dez maridos. Prefere dizer que “foi uma porrada”.
Em 71 minutos de entrevista à Folha, Nana falou 89 palavrões. É o seu jeito. Não foge de nenhum assunto, nem mesmo política, em que destoa do coro dos colegas artistas. Ela votou em Jair Bolsonaro no segundo turno.
“É injusto não dar a esse homem um crédito de confiança. Um homem que estava fodido, esfaqueado, correndo pra fazer um ministério, sem noção da mutreta toda... Só de tirar PMDB e PT já é uma garantia de que a vida vai melhorar. Agora vêm dizer que os militares vão tomar conta? Isso é conversa de comunista. GilCaetanoChico Buarque. Tudo chupador de pau de Lula. Então, vão pro Paraná fazer companhia a ele. Eu não me importo.”
Ela acha difícil voltar a se apresentar na Bahia, e isso também tem a ver com política. “Bahia não tem nada, é PT”. O partido está no governo do Estado há 12 anos. O pai, que morreu em 2008 aos 94 anos, já não tinha mais saudade da Bahia. “Ele ficou muito triste na última vez em que foi lá. E isso porque ainda era a época do capo, Antonio Carlos Magalhães [1927-2007]”. Nana diz que “toda a família se dava” com o ex-governador.
“Tenho medo do futuro dos meus netos e bisnetos. Pensar no Brasil não é comprar carro novo, apartamento com vista pro mar, o último celular da Apple, a última roupa do Givenchy. Fico muito triste”, lamenta.
Nos anos 2000, Nana gravou CDs cantando a obra do pai. Queria —e conseguiu— que ele ainda estivesse vivo para ouvir. E queria que não o esquecessem.
'EU COMIA A MPB E FAZIA PARCERIA. NA MÚSICA E NA CAMA'
“Já esqueceram. Tenho certeza absoluta. Sabe por que não se esquecem totalmente? Porque tem aniversário de morte, tem sempre uma macumbeira que se lembra de uma música qualquer, ou se lembram em 2 de fevereiro, dia de festa no mar. Tem sempre uma merda assim.”
Suas duas netas são exemplos, a seu ver, da dificuldade de se manter obras como a de Caymmi.
“Liguei pra Denise, minha filha, e perguntei das meninas. ‘Ah, elas não tão aqui, foram assistir ao show do Belo’. Eu falei: ‘O quê?’. Não tenho nada contra a pessoa. Mas duas bisnetas de Dorival Caymmi! Eu já fazia música com quatro anos. Meti bedelho quando vivi com João Donato, com Gil, com Claudio Nucci. Quer dizer, eu comia a canção popular brasileira e fazia parceria. Na música e na cama.”
De Alice, filha de Danilo que foi para o lado pop, ela fala com um pouco de tristeza, embora reconheça que a sobrinha tem ótima voz. “Eu tinha muita esperança de que ela fosse pro meu caminho. Achei que Alice ia dar mel, mas não deu.”
Nana queria lançar o CD dedicado à obra de Tito Madi com o compositor ainda vivo. Não deu tempo: ele morreu em 26 de setembro de 2018, aos 89 anos. Ela gravou em abril do ano passado, mas o produtor José Milton não conseguiu concluir o trabalho a tempo.
“É você fazer a festa sem o aniversariante. Mas ele ouviu, porque o Zé Milton mostrou. Ele sabia que um dia ia sair”, emociona-se ela. “A gente se falava muito pelo telefone. Eu percebi a estrela indo pro céu. Sabia que eu estava falando com alguém que estava se despedindo.”
Ela realiza algo que Tito Madi acreditava que Roberto Carlos faria. O cantor, segundo Madi, teria falado em gravar um disco dedicado à sua obra. Nana diz que também ouviu essa história. (“Ah, manda um CD para aquele rei sem trono”, aproveita para gritar à assessora de imprensa.) A Folha procurou a assessoria de Roberto, mas ele está em turnê nos EUA e não foi possível consultá-lo.
Tito Madi foi uma das primeiras paixões musicais de Nana. São as canções de sua “memória afetiva”, como diz, que predominam no repertório de 11 faixas. Sete foram compostas nos anos 1950, como “Cansei de Ilusões”, “Chove Lá Fora” e “Não Diga Não”. Esta é a única que ela já gravara: em 1983, no disco “Voz e Suor”, ao lado do pianista Cesar Camargo Mariano.
“O Cesar estudava todas aquelas músicas”, recorda. “Eu dizia: ‘Você quer parar de estudar essa merda? Vou escolher uma música pra você tocar no susto, na urina. Bateu, valeu. Deu, comeu’. Era ‘Não Diga Não’. Achei que ia botar no rabo dele com farinha, mas ele arrasou comigo. Fui cantando, ele acompanhando. É a música mais bonita do disco.”
Ela optou agora por uma interpretação mais contida. Diz que não queria competir com a versão muito forte feita ao lado de Cesar. “É como aquela pessoa que vai à cozinha e come à beça. Aí chega na hora da refeição e come um bifinho: ‘Tô de dieta’.” A nova versão é diet, portanto.
'EU ERA BOATEIRA, DANÇAVA QUE NEM UMA FILHA DA PUTA'
Mas tem uma canção mais suingada, “Balanço Zona Sul”, exceção na obra de Madi e no estilo de Nana. Foi um grande sucesso de Wilson Simonal nos anos 1960.
“Acho que Tito estava numa fase de ficar na praia vendo bunda de mulher. E a música é boa pra cacete. Simonal deve ter tirado um troco. Agora, Simonal é referência pra alguém? Conheci a arrogância dele, andava com escolta. Era muito vaidoso. Vi isso na Elis [Regina] também. Achavam que Elis era toda aquela santidade. Santidade era Clara Nunes, boníssima, uma pessoa que não tinha medo de quem fizesse sucesso. Elis não podia ver uma cantora nova que se arrepiava.”
Assim como o repertório de Dolores Duran, que Nana registrou em CD em 1994, o de Tito Madi ficou associado à ideia de fossa, palavra que ele acabou assumindo.
“Eu não tô nem aí pra expressão. Quer nome mais escroto do que bossa nova? O que a gente vai fazer contra a ignorância?”, ignora Nana, amante de sambas-canção e outras músicas que tocavam em boates. “Eu era boateira, dançava que nem uma filha da puta. Saía com as amigas pra pegar homem.”
Foi saindo na noite que ela conheceu Emílio Santiago, então um crooner. O cantor tinha decidido gravar um CD com músicas de Tito Madi quando morreu, em 2013, aos 66 anos, após um acidente vascular cerebral. Homenagear o amigo motivou Nana a voltar aos estúdios.
“Eu era cama e mesa com Emílio. Se a bicha não fosse bicha, eu estava casada com ela. E não teria morrido, porque eu ia levar para o médico a porrada. Comia feijoada à noite, achava que não existia colesterol. Ia jantar depois dos shows e comia verdadeiras bundas de vaca. Foi uma perda pra mim fodida.”
Em dezembro passado, perdeu outra pessoa querida, a cantora Miúcha, que também não cuidava da saúde, segundo Nana. “Essa filha da puta... Não parava de fumar”, diz, com tristeza.
A tristeza e o cansaço também estão ligados à situação de seu filho João Gilberto. Em 16 de dezembro de 1989, ele sofreu acidente de moto que lhe deixou sequelas neurológicas graves. Está com 51 anos. “Eu sou a companhia dele, dou vida a ele. Ele adora ver o Datena, e eu tenho que ver também.”
'OS PÁSSAROS FICAM PUTOS PORQUE EU CANTO AS ÓPERAS'
Nana quer vender o apartamento onde mora, no Alto Leblon, e se dividir entre o apartamento de Copacabana onde seus pais passaram o final da vida e o sítio da família em Pequeri (MG).
“Não aguento mais ficar de Rapunzel”, diz, referindo-se ao Alto Leblon. “Vou vender e torrar o dinheiro. Até eu morrer torro essa porra toda. Minhas filhas que se fodam. Eu não aturei elas? Não estou há 30 anos com esse acidentado? Ele vai ter Pequeri. É onde eu quero que ele fique. É a única maneira de ele ter vida saudável. “
Foi o filho quem a apresentou ao pop de George Michael, Madonna, Bee Gees e outros de quem ela gosta. Em Pequeri ouve mais suas óperas.
“Chego lá e é uma revolução. Os pássaros ficam putos, porque eu canto as óperas junto com os discos.”
Embora tenha optado pela contenção ao interpretar Tito Madi agora, ela demonstra segurança quanto à própria voz.
“Não fiquei preocupada. Tô vendo meus colegas cantores todos fodidos aí. Dori e Cristovão Bastos [arranjadores do CD] dizem que eu estou uma beleza. Não sei se é só pra me agradar.”
A voz será posta à prova no trabalho dedicado a Tom Jobim. Serão músicas adequadas a orquestras, como “As Praias Desertas”, “Derradeira Primavera” e “Janelas Abertas”. “Não é pra qualquer um. Se eu morrer, não estou vendo cantora que faça isso.”
'CAETANO SÓ DÁ GRITO QUANTO ESTÁ FURIOSO COM A PAULA [LAVIGNE]'
Ela diz que não tem paciência para turnês, aeroportos etc. Mas adora estúdios.  
“Coisa mais gostosa de fazer é gravar. Todo cantor que se preza gosta mais de estúdio.” Alertada de que o ex-marido Gilberto Gil já disse preferir palcos, ela minimiza. “Gil é maluco, adora aparecer. Se pudesse, dormia no palco. E ele tá cansado. Chega, está cantando há séculos e aos gritos. Eu falei: ‘Gil, não grita’, ‘Gil, não grita’. Mas conselho não se dá. Por que Caetano tem a voz que tem, a mesma desde que nasceu entre as pernas de dona Canô? Não há possibilidade de ele dar um grito. Só dá grito quando ele tá furioso com a Paula [Lavigne] ou se é pra falar de jornalista.”
Ela pensa em fazer poucos shows com o repertório de Tito Madi, de preferência nos lugares em que se apresentar com o de Tom. São Paulo, por exemplo. Mas preferiu gravar o CD com canções de Tom no Rio, perto de casa. “Se fosse pra gravar em São Paulo, eu ia limpar o rabo com o contrato.” 
Cogita abrir uma exceção: apresentar-se em Belém, cidade onde ela diz ser maravilhosamente recebida. Mas, para evitar escala em Brasília, teria que pegar um voo às 9h, horário que não a agrada. “Às 9 da manhã eu não sou mulher, eu sou veado.”
Apesar do desalento, ela não descarta fazer mais um disco de inéditas, que poderia ser o seu último.
“Se você noticiar que eu vou fazer um disco de inéditas, estou fodida. Na mesma hora recebo um caminhão de discos. É uma responsabilidade que eu não quero pegar, uma esperança que não quero dar. Se eu resolver fazer, aviso com antecedência.”
Gravando ou não um CD de despedida, ela diz já ter cumprido sua missão na música. “Já dei régua e compasso. Agora, é como diz meu ex-marido: Aquele abraço!”

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

“Bolsonaro admira um assassino e ladrão", por Clóvis Rossi

Clóvis Rossi
Ao chamar o general paraguaio Alfredo Stroessner de “estadista", Jair Bolsonaro desqualifica a si próprio como presidente de um regime democrático.
Stroessner nunca foi um estadista e, sim, um nefando déspota assassino.
Bolsonaro nem precisaria recorrer à ampla bibliografia que conta a história da ditadura do período 1954-1989. Bastaria conhecer, por exemplo, decisão de 2003 da justiça paraguaia que determinou o embargo dos bens de Stroessner (então exilado no Brasil), em uma causa por violação aos direitos humanos.
Foi responsabilizado pela morte sob tortura, em 1974, de Celestina Pérez de Almeida, esposa do educador Martín Almada.
Mas esse fato, por si só, não comoveria Bolsonaro, cujo ídolo chama-se Carlos Alberto Brilhante Ustra, o primeiro militar condenado pela justiça pela prática de tortura. Quem admira um torturador admira todos eles.
Mas Stroessner não era apenas um ditador. Era também tão corrupto que o juiz Arnaldo Fleitas estimou, certa vez, a sua fortuna de Stroessner em US$ 500 milhões (equivalentes hoje a R$ 1,8 bilhão), distribuídos em contas secretas na Suíça ou abertas em nomes de terceiros e da empresa Sur Inmobiliaria, administrada por alguns de seus netos.
O ditador Alfredo Stroessner, em desfile em 1963 em Assunção - Reuters
 
Se uma pessoa assim é um estadista, para Bolsonaro, então Sérgio Cabral também o é, assim como Paulo Preto, certo?
Se se desse ao trabalho de ler alguma coisa além dos tuítes de seus filhos, Bolsonaro ficaria sabendo, por exemplo, que a ditadura de Stroessner ficou marcada, entre outros pontos, pela violação sistemática aos direitos humanos (práticas de torturas físicas e psicológicas, assassinatos, exílios forçados, desaparecimentos, violações sexuais, entre outros); por gordo esquema de corrupção e pela censura aos órgãos de imprensa (talvez a admiração de Bolsonaro se explique por aí).
Quem quiser se informar sobre o que foi de fato o regime do “estadista” de Bolsonaro pode consultar o chamado “Archivo del Terror", uma penca de documentos encontrados em 1992 em uma delegacia de polícia de Lambaré, a 30 quilômetros de Assunção. Os documentos estão armazenados no Palácio de Justiça e comprovam não só as práticas bárbaras da ditadura como o trabalho conjunto com outros regimes autoritários do Cone Sul, Brasil inclusive.
É claro que, ao rotular um déspota como estadista, Bolsonaro não vai conseguir reescrever a história. O perigo é que esse tipo de avaliação idiotizada destapa uma caixa de Pandora da qual tendem a emergir boçalidades como, para ficar na mais recente, a proposta de cantar o hino e filmar as crianças fazendo-o.
Clóvis Rossi
Repórter especial, membro do Conselho Editorial da Folha e vencedor do prêmio Maria Moors Cabot.

domingo, 4 de novembro de 2018

"Os Desesperados", editorial do Estadão


Os petistas prometem "construir uma frente de resistência pelas liberdades democráticas", como se o País estivesse às portas da ditadura

O Estado de S.Paulo
04 Novembro 2018 | 04h00

Uma oposição “propositiva” ao governo de Jair Bolsonaro é o que prometem alguns partidos de esquerda que já começam a se organizar com vista à próxima legislatura. Não por acaso, esse bloco excluirá o PT. Segundo explicou o deputado André Figueiredo (CE), líder do PDT na Câmara, o partido do ex-presidente e hoje presidiário Lula da Silva “tem um modus operandi próprio dele”, enquanto o bloco formado por PDT, PSB e PCdoB “tem um outro modelo de oposição”, isto é, “um modelo construtivo para o País”.
Ainda será preciso esperar que esses partidos passem das belas palavras aos atos concretos, mas é significativo que agremiações que tão fortemente antagonizaram com Bolsonaro durante a campanha agora se digam dispostas a fazer oposição responsável ao próximo governo.
Também é significativo que o grupo tenha dispensado o PT e sua linha auxiliar, o PSOL, das conversas para a formação de um bloco de oposição. O pedetista André Figueiredo explicou que não é mais possível aceitar “o hegemonismo que o PT quer impor aos demais partidos” e que nenhuma dessas legendas de esquerda aceita ser “um puxadinho do PT”.
O isolamento do PT no campo da oposição é a consequência natural do comportamento autoritário do partido, incapaz de uma convivência democrática mesmo com aqueles com os quais nutre alguma afinidade ideológica. Para os petistas, nada que não tenha sido ditado pelo PT tem legitimidade.
À medida que foi sendo desossado pelas urnas e pela Justiça, o partido de Lula da Silva recrudesceu seu autoritarismo, expondo cada vez mais seu desespero. Depois de passar a campanha inteira a denunciar como “golpe” o impeachment constitucional de Dilma Rousseff, a exigir a libertação de Lula, como se este não tivesse que cumprir pena pelos crimes que cometeu, e a exigir apoio a seu candidato como única forma de “salvar a democracia” ante o perigo do “fascismo” supostamente representado pela candidatura de Bolsonaro, o PT agora trata de dizer que a vitória do oponente resultou de um processo “eivado de vícios e fraudes”, conforme declarou a presidente do partido, Gleisi Hoffmann.
Os petistas, assim, fazem exatamente aquilo que deles se esperava – isto é, em vez de aceitar o resultado das urnas e se organizar para fazer oposição decente e leal ao futuro governo, preferem deflagrar campanha para deslegitimar a vitória de Bolsonaro. Do alto de sua prepotência, os petistas dizem que Bolsonaro foi eleito depois de “uma campanha de ódio e de mentiras, que nos últimos anos manipulou o desespero e a insegurança da população”, como diz uma resolução da Executiva Nacional do PT aprovada logo após a eleição. Ou seja, para o PT, se não houvesse “manipulação” e “mentiras” o candidato petista seria eleito com folga.
Um partido que em documento oficial chama um presidente democraticamente eleito de “aventureiro fascista”, como faz o PT, não tem a menor intenção de fazer oposição. Para esta atitude verdadeiramente golpista já chamávamos a atenção no editorial Desespero, de 19 de outubro. Sua intenção é inviabilizar o governo e, por tabela, impedir que o País saia da crise que os próprios petistas criaram em sua desastrosa passagem pela Presidência. Os desesperados petistas prometem “construir uma frente de resistência pelas liberdades democráticas”, como se o País estivesse às portas da ditadura, e essa “resistência” se estende a tudo o que interessa à maioria da população, a começar pela reforma da Previdência.
Enquanto isso, os grupelhos a serviço do lulopetismo mostram do que é feita a “democracia” que defendem: uma manifestação convocada pelo notório Guilherme Boulos para exigir que Bolsonaro “respeite a oposição” e “as liberdades democráticas” acabou em tumulto e depredação na terça-feira passada em São Paulo.
Não surpreende, assim, que a tal “frente de oposição” que o PT pretende liderar não tenha apoio. O grave momento do País exige um esforço de todos para a superação da crise, o que implica a existência de uma oposição dura, porém prudente. Os sabotadores – aqueles que não se importam com o interesse público – devem ser isolados, para que fique patente de vez sua profunda irresponsabilidade.
https://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,os-desesperados,70002583377

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

"Bolsonaro, o 'mito', derrotou a 'ideia' Lula", por José Nêumanne

Os quase 60 milhões de eleitores que votaram no capitão só queriam se livrar do ladrão
JOSÉ NÊUMANNE, O Estado de S.Paulo
31 Outubro 2018 | 03h00

Nêumanne
Desde 2013 que o demos (povo, em grego) bate à porta da kratia (governo), tentando fazer valer o preceito constitucional segundo o qual “todo poder emana do povo” (artigo 1.º, parágrafo único), mas só dá com madeira na cara. Então, em manifestações gigantescas na rua, a classe média exigiu ser ouvida e o poste de Lula, de plantão no palácio, fez de conta que a atendia com falsos “pactos” com que ganhou tempo. No ano seguinte, na eleição, ao custo de R$ 800 milhões (apud Palocci), grande parte dessa dinheirama em propinas, ela recorreu a um marketing rasteiro para manter a força.
Na dicotomia da época, o PSDB, que tivera dois mandatos, viu o PT chegar ao quarto, mas numa eleição que foi apertada, em que o derrotado obtivera 50 milhões de votos. Seu líder, então incontestado, Aécio Neves, não repetiu o vexame dos correligionários derrotados antes – Serra, Alckmin e novamente Serra – e voltou ao Senado como alternativa confiável aos desgovernos petistas. Mas jogou-a literalmente no lixo, dedicando-se à vadiagem no cumprimento do que lhe restava do mandato. O neto do fundador da Nova República, Tancredo Neves, deixou de ser a esperança de opção viável aos desmandos do PT de Lula e passou a figurar na galeria do opróbrio ao ser pilhado numa delação premiada de corruptores, acusado de se vender para fazer o papel de oposição de fancaria. O impeachment interrompeu a desatinada gestão de Dilma, substituída pelo vice escolhido pelo demiurgo de Garanhuns, Temer, do MDB, que assumiu e impediu o salto no abismo, ficando, porém, atolado na própria lama.
Foi aí que o demos resolveu exercer a kratia e, donas do poder, as organizações partidárias apelaram para a força que tinham. Garantidas pelo veto à candidatura avulsa, substituídas as propinas privadas pelo suado dinheiro público contado em bilhões do fundo eleitoral, no controle do horário político obrigatório e impunes por mercê do Judiciário de compadritos, elas obstruíram o acesso do povo ao palácio.
Em janeiro, de volta pra casa outra vez, o cidadão sem mandato sonhou com o “não reeleja ninguém” para entrar nos aposentos de rei pelas urnas. Chefões partidários embolsaram bilhões, apostaram no velho voto de cabresto do neocoronelismo e pactuaram pela impunidade geral para se blindarem. Mas, ocupados em só enxergar seus umbigos, deixaram que o PSL, partido de um deputado só, registrasse a candidatura do capitão Jair Bolsonaro para conduzir a massa contra a autossuficiência de Lula, ladrão conforme processo julgado em segunda instância com pena de 12 anos e 1 mês a cumprir. O oficial, esfaqueado e expulso da campanha, teve 10 milhões de votos a mais do que o preboste do preso.
Na cela “de estado-maior” da Polícia Federal em Curitiba, limitado à visão da própria cara hirsuta, este exerceu o culto à personalidade com requintes sadomasoquistas e desprezo pela sorte e dignidade de seus devotos fiéis. Desafiou a Lei da Ficha Limpa, iniciativa popular que ele sancionara, transformou um ex-prefeito da maior cidade do País em capacho, porta-voz, pau-mandado, preposto, poste e, por fim, portador da própria identidade, codinome, como Estela foi de Dilma na guerra suja contra a ditadura. Essa empáfia escravizou a esquerda Rouanet ao absurdo de insultar 57 milhões, 796 mil e 986 brasileiros que haviam decidido livrar-se dele de nazistas, súditos do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, que não se perca pelo nome, da Alemanha de Weimar: a ignorância apregoada pela arrogância.
Com R$ 1,2 milhão, 800 vezes menos do que Palocci disse que Dilma gastara há quatro anos, oito segundos da exposição obrigatória contra 6 minutos e 3 segundos de Alckmin na TV, carregando as fezes na bolsa de colostomia e se ausentando dos debates, Bolsonaro fez da megalomania de Lula sua força, em redes sociais em que falou o que o povo exigia ouvir.
A apoteose triunfal do “mito” que derrotou a “ideia” produziu efeitos colaterais. Inspirou a renovação de 52% da Câmara; elegeu governadores nos três maiores colégios eleitorais; anulou a rasura na Constituição com que Lewandowski, Calheiros e Kátia permitiram a Dilma disputar e perder a eleição; e forçou o intervalo na carreira longeva de coveiros da república podre.
O nostálgico da ditadura, que votou na Vila Militar, tem missões espinhosas a cumprir: debelar a violência, coibir o furto em repartições públicas e estatais, estancar a sangria do erário em privilégios da casta de políticos e marajás e seguir os exemplos impressos nos livros postos na mesa para figurarem no primeiro pronunciamento público após a vitória, por live. Ali repousavam a Constituição e um livro de Churchill, o maior estadista do século 20.

Não lhe será fácil cumprir as promessas de reformas, liberdade e democracia, citadas na manchete do Estado anteontem. Vai enfrentar a oposição irresponsável, impatriótica e egocêntrica do presidiário mais famoso do Brasil, que perdurará até cem anos depois de sua morte. E não poderá fazê-lo com truculência nem terá boa inspiração nos ditadores que ornam a parede do gabinete que ocupou. Sobre Jânio e Collor, dois antecessores que prometeram à cidadania varrer a corrupção e acabar com os marajás, tem a vantagem de aprender com os erros que levaram o primeiro à renúncia e o outro ao impeachment.
Talvez o ajude recorrer a boas cabeças da economia que trabalharam para candidatos rivais, como os autores do Plano Real e a equipe do governo Temer, para travarem o bom combate ocupando o “posto Ipiranga” sob a batuta de Paulo Guedes. Poderá ainda atender à cidadania se nomear bons ministros para o Supremo Tribunal Federal e levar o Congresso a promover uma reforma política que ponha fim a Fundo Partidário, horário obrigatório e outros entulhos da ditadura dos partidos, de que o povo também quer se livrar em favor da desejável igualdade.

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