terça-feira, 17 de outubro de 2017

88 anos de Fernandona, por Michelle Licory

16.10.2017  /  13:46

Fernanda Montenegro: “tomo de um a dois banhos por dia, vou ao dentista e boto um creminho na pele. Mas não faço plástica!”



Nesta segunda-feira, Fernanda Montenegro completa 88 anos, em plena atividade, prestes a estrear mais uma novela, “O Outro Lado do Paraíso”. “Nunca pensei em chegar a essa idade. Quando eu era jovem, 88 parecia ser igual a ter mil anos de vida”. A veterana, ícone maior entre os atores brasileiros, mostrou toda sua compreensão com os mais inexperientes ao dizer que não dá conselhos – “Deus me livre” – e que “o jovem ainda não passou pela prova de fogo, não tem bagagem, então não dá pra exigir uma conversa na mesma onda. Ou ele vai se humilhar ou se defender. É natural”. Isso e muito, muito mais:
“Não tenho perfil para cadeira de balanço”
Para começar com a pergunta mais óbvia: será que Fernanda pensa em aposentadoria? “A gente até pode achar que não aguenta, mas vai fazer o que? Essa rotina te exige acordar e cantar. Você acorda e canta. Não tenho perfil para cadeira de balanço. Essa vida de artista é tão intensa que a gente vicia no estresse. Faz parte. Não é como um bancário, que pede a Deus sua aposentadoria, ou pra que chegue o sábado e domingo pra poder ficar em casa. A não ser que ele tenha uma vocação louca para aquilo e termine dono do banco… Todo dia o ator tem que mostrar sua criação, sua criatividade. É diferente”.
“Isso é filosofia barata, mas real”
Por ser vista como uma referência, deve ser boa de conselhos… “Não sou de dar conselhos na minha vida. Se me pedem, dou. Mas não fico em cima das pessoas ensinando a viver. Deus me livre. Cada um tem seu caminho. Se houver uma conversa… Mas sou incapaz de ficar: ‘olha, não vá fazer isso, ou você saber o que vai acontecer…’ Deixa a pessoa viver a experiência que quer, sem conselhos”. Perguntamos se ela se arrepende de algo. “Acho que vivi a minha vida plenamente. Não me arrependo de nada. Tudo vai acumulando conhecimento. É frase feita, mas é verdade. Mesmo as coisas mais duras e desagradáveis e dolorosas com o passar do tempo você vê que ter dobrado aquela esquina, quando você pensava ‘puxa, perdi a minha vida’, depois percebe que se não tivesse dobrado não estava agora dobrando essa outra esquina que está te salvando. Isso é filosofia barata, mas real”.
“Tomo de um a dois banhos por dia, vou ao dentista e boto um creminho na pele”
Qual é a vaidade de Fernanda Montenegro? “Minha vaidade é cuidar da minha saúde sem me privar das coisas que quero comer. Mas já comi mais do que como hoje. A vida inteira jantei muito porque a gente fazia teatro e saía depois de três atos – peças enormes – morrendo de fome. Mas a idade te põe à prova. Fora isso, tomo de um a dois banhos por dia, vou ao dentista e boto um creminho na pele. Mas não faço plástica”.
“Chega uma hora que não tem papel”
Por quê? “Uma coisa bonita no ator de teatro – televisão é outra zona – é que você vai envelhecendo e tendo papeis para sua idade. O problema da TV é que o ator quanto mais se opera, mais ele fica deslocado do seu tempo de vida, da sua estrutura física, por mais ginástica que faça, compreende? Chega uma hora que não tem papel: não é jovem pra fazer personagem jovem, nem é meia-idade porque tirou todas as possíveis rugas e papos que poderia ter. E também nunca vai ter idade de chegar ao extremo número de anos… Não tem cara para idade nenhuma. A pessoa vai ficando indefinida”.
“Não dá pra exigir uma conversa na mesma onda. Ou ele vai se humilhar ou se defender”
Para toda regra, exceção. “Essa nova novela tem um monte de ator veterano [Nathalia Timberg, Lima Duarte, Marieta Severo, Juca de Oliveira, Laura Cardoso] em papeis ótimos, complexos, difíceis. E nós todos vamos tentar fazer o melhor da gente. O jovem ainda não passou pela prova de fogo, não tem bagagem, então não dá pra exigir uma conversa na mesma onda. Ou ele vai se humilhar ou se defender. É natural que depois de… Estou nessa vida há 70 anos. Aí já sobrevivi com a minha geração. Já trabalhei muito com Nathalia, Lima… Nunca pensei em chegar a essa idade. Quando eu era nova, 88 parecia ser igual a ter mil anos de vida”.
“Se quer ser ator de TV, não perca tempo no teatro” 
“Os mais jovens vêm pra essa carreira pra brilhar. Mas quando comecei não tinha TV dessa forma. Hoje em dia está muito dividido. Você pode querer fazer teatro, cinema e TV, tudo junto, mas sou de uma época em que o grande sonho era o palco. Hoje querem ser famosos. Antigamente, quando eu ia dar palestra pra jovem, falava mais de teatro que de TV. Hoje em dia não. Hoje eu digo: se quer ser ator de TV, não perca tempo no teatro. O teatro é lento, vai exigir anos de entrega. TV, não. TV é eletrônica. Se você não acertar, repete. A hora que você fizer quase bom, se tá na hora de fechar o capítulo, para ali. Não tem nada a ver com o mundo artesanal do teatro”.
“Se uma atriz jovem contracenando comigo precisar, eu espero pingarem a lágrima”
“Pode ser bem sucedido mesmo sem talento. O processo eletrônico forja o que quiser em cima do ser humano pra resultar no caminho que aquela personagem e aquela novela exigem. Se não tem lágrima, para e pinga a gota no olho. Não precisa de dois meses de ensaio. E não digo como algo inferior porque não sou ninguém pra julgar. É um processo de avanço dentro de uma ambição tecnológica. Tenho paciência, sim: se uma atriz jovem contracenando comigo precisar, eu espero pingarem a lágrima para gravar. Tenho que entender. Mas no palco a plateia não espera. Certamente vai vaiar. E o teatro não vai morrer nunca. De alguma forma, vai sobreviver”.
“É a missão dela fazer o bem. É também uma condenação”
Pra não dizer que a gente não falou da Mercedes de “O Outro Lado do Paraíso”… Sobre comparações com seu papel em outra novela, “Riacho Doce”, ela disse: “Em ‘Riacho Doce’, a personagem era poderosa, ativista dentro do misticismo dela. A Mercedes, não. Ela é uma sombra, já está do outro lado. É frágil. As vozes deixam ela acordada. Tem que fazer o que as vozes mandam, que é socorrer o próximo. É a missão dela fazer o bem. É também uma condenação. Está aqui na Terra pra isso”. Como é a fé da Fernanda? “Não sou fanática, mas tenho meu lado místico. Só não ouço vozes nem tenho nenhum privilégio de mediunidade. Eu duvido, mas Santo Agostinho diz que se você duvida, já crê. Acho essa frase muito confortadora”. (por Michelle Licory)

terça-feira, 26 de setembro de 2017

A Carta de Palocci - 26/9/2017

"Até quando vamos fingir na auto-proclamação do "homem mais honesto do país" enquanto os presentes, os sítios, os apartamentos e até o prédio do instituto (!!) são atribuídos à Dona Marisa?"

"Afinal, somos um partido político sob a liderança de pessoas de carne e osso ou somos uma seita guiada por uma pretensa divindade?"

Nada como um petista histórico jogando no ventilador toda a merda que presenciou e de que foi artífice nestes últimos anos. Com sua confissão Palocci destrói a pauladas o mito de Lula e do lulopetismo, cuja defesa continua sendo feita pelos idiotas.

Aquela porcaria que se encontra hoje na presidência do PT mugiu uma resposta. Não cabe comentá-la. À uma privada usada não se dá a palavra; se dá a DESCARGA.

Lula, acabou.




(Fotos em alta resolução)

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Entrevista de Janaína Paschoal à Folha - 23/05/2017

Autora de impeachment de Dilma se decepciona com Aécio e rejeita FHC



ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER
DE SÃO PAULO
23/05/2017 02h00

Em agosto, a advogada Janaina Paschoal, 42, caiu no choro e foi consolada por um abraço de Aécio Neves (PSDB-MG). Coautora do pedido de impeachment contra Dilma Rousseff, acabara de defender sua destituição e pedir na tribuna do Senado que a petista a desculpasse. "Peço que ela, um dia, entenda que eu fiz isso também pensando nos netos dela."

Na semana passada, registrou uma "profunda tristeza" em rede social. "Não por mim, mas por Tancredo Neves, entendo que seu neto não tem mais condições de compor o Senado." O mesmo Aécio que a embalou nove meses antes acabou pego num áudio comprometedor, virou réu e foi afastado do cargo pelo STF (Supremo Tribunal Federal).
Em entrevista à Folha, a professora de direito penal da USP defende a renúncia de Michel Temer como a saída "menos dolorida" e diz que, para substitui-lo, é "contra qualquer ideia de colocar FHC", que "só faz oposição de fachada".
*
A sra. defendeu a renúncia do presidente. Isso ele já disse que não vai acontecer. Qual seria a melhor saída para a crise política então?

Janaina Paschoal - A renúncia é menos dolorida. Além dela e do impeachment, há os caminhos do Tribunal Superior Eleitoral [cassação da chapa] e do próprio STF.

Assinaria um pedido de impeachment contra Temer?

Com relação a Dilma, ninguém teria coragem para enfrentá-la, pois o PT domina a imprensa e as universidades. Por isso corri tantos riscos. Com relação a Temer, a OAB já tomou a dianteira [de pedir a destituição], e eu apoiei. Não precisa que eu assine.

A sra. participou de manifestações associadas à direita em 2016. Se hoje há uma pauta convergente, o "fora, Temer", por que é tão difícil unir os dois polos ideológicos?

Os manifestantes [da esquerda] de agora não querem apenas "fora, Temer", eles querem "volta, Lula". Não vou ajudar. Quero que todos os criminosos sejam responsabilizados, Lula inclusive.

A sra. diz que não concorda com eleições diretas, pois seria uma forma de Lula poder concorrer antes de eventuais condenações que impossibilitam sua candidatura. É justo tratar uma "Diretas-Já 2" como estratégia de um partido, se em abril 85% da população apoiava a ideia?

Na verdade, não sou contra diretas só por causa do Lula. Eu sou contra diretas porque a Constituição não prevê. O que eu ponderei foi o fato de os petistas não estarem pedindo "fora, Temer" pelo Brasil, mas sim pelo PT, pois eles não reconhecem os crimes de Lula e Dilma.

Se Temer cair, quais seriam bons nomes para o Planalto?

Sou contra qualquer ideia de colocar FHC. Ele sempre defendeu Lula e Dilma. Nunca apoiou o impeachment. A oposição dele é de fachada. Desses nomes [que circulam como potenciais candidatos], só apoiaria Cármen Lúcia [presidente do STF].

Teme que esse cenário de terra arrasada na política, após um impeachment e a recente crise com Temer, fortaleça posições extremistas no Brasil?

Não, temos que limpar! Não podemos nos acovardar em nome de uma estabilidade fictícia. Esse pessoal tem que aprender que a lei também é para eles.

Há na sociedade apreço por nomes do Judiciário. Sergio Moro e Joaquim Barbosa têm boa aprovação entre eleitores. Cogitaria carreira política?

Não tenho vontade de entrar em partido. Não está nos meus planos, prefiro ajudar a criar bons quadros. Apesar de, tristemente, ter que reconhecer que anda difícil.

Em 2016, a sra. chorou no Senado, ao discursar a favor do impeachment de Dilma, e foi consolada por Aécio. No domingo (21), disse que não adiantava "colar minha foto com Aécio". Como classifica sua relação com o tucano?

Acho que falei com o senador Aécio três vezes na vida. Não tinha nenhuma proximidade com ele. Votei nele apenas no segundo turno em 2014. No primeiro, votei em Marina. Sempre tive muito carinho por Tancredo, pois ele representava o sonho da democratização. O que quis dizer foi que eu amo o Brasil, e os petistas amam o PT.

Petistas vêm defendendo que as ações que atingiram Temer e Aécio só deram certo porque não saíram da vara judicial de Sergio Moro, e sim da Procuradoria-Geral da República.

Acho injusta a crítica a Moro, pois Aécio e Temer têm foro privilegiado, então ao poderiam ser alcançados pelo Supremo mesmo.

A sra. defende pegar "a dupla caipira", os irmãos delatores Joesley e Wesley Batista, com o "insider trading". Como seria isso?

"Insider trading" é um crime ainda pouco conhecido. A banca de doutorado que compus hoje [segunda, 22] trata justamente sobre os crimes contra mercado de capitais. Eles usaram informações privilegiadas depois do acordo [de delação premiada]. O crime posterior não é alcançado pelo acordo. Entendo que podem e devem ser responsabilizadas por isso.

Em 2016, a sra. declarou que o Brasil "não é a República da cobra" e que "a jararaca está viva", num ataque ao ex-presidente Lula. Por que acha que esse discurso foi tão polêmico?
Porque as pessoas têm medo da verdade. Sabe, pode parecer romântico e até pueril, mas eu realmente acredito que este país merece uma chance. E gostaria que todos os homens e mulheres que têm poder pensasse nos que passaram e nos que virão. O Brasil não pode continuar sendo uma terra a ser explorada. Precisa ser cultivada. Tenho sofrido muito mesmo vendo tanto desdém. Mas nós não podemos desistir.

No Twitter, a sra. indagou o que haveria "por trás da terrível perseguição que sofri". Que perseguição seria essa e da parte de quem?

As falsas acusações são constantes –de que eu sou golpista etc. Durante o processo [de impeachment], a defesa de Dilma passou de todos os limites, dizendo que eu teria recebido, quando eu estava pagando todas as despesas. Fizeram um grupo de choque formado por senadores e advogados. José Eduardo Cardozo [ex-ministro da Justiça] chegou a dizer que eu tirei uma página de um documento. Provei que era mentira, e ele não pediu desculpas. Mandaram trogloditas ligados aos movimentos deles me agredir no aeroporto. A perseguição foi terrível, mas não gosto de vitimizar. Esse papel é dos petistas.

A sra. virou alvo de piadas na internet ao afirmar que prometeu a Tancredo "que olharia pelo país". O site Sensacionalista até brincou: "Janaina promete liberar áudio de conversa que teve com Tancredo no jardim de infância".

Quanto a ridicularizar o opositor, isso é típico de quem quer ganhar um debate sem ter razão. Acredito no espírito e respeito muito os mortos, minha promessa a Tancredo não foi em vida. Foi à alma de Tancredo. Como sempre penso em meu avô quando luto por Justiça. O materialismo só faz as pessoas verem o dinheiro. Eu prezo a história. Aécio jogou lama em um herói nacional. É imperdoável.

A sra. sempre usava a mesma pulseira azul em 2016. Era uma espécie de amuleto?

Procurei usá-la o processo inteiro. Também não troquei o brinco. Não vesti marrom. Nas vezes em que vesti, as coisas deram muito errado. Deve ser coincidência, mas prefiro evitar em situação difíceis. Li a Bíblia e os salmos com frequência. Guardei todos os santos e orações que recebi... Numa briga desse tamanho, toda proteção é bem-vinda.

Ainda usa a pulseira?

Às vezes, gosto de azul.


terça-feira, 9 de maio de 2017

"Direita x Esquerda", por Ricardo Rangel

Meus caros,
já era hora desse pensador admirável que é Ricardo Rangel ter um texto  de tantos com os quais vêm brindando nossa inteligência, nos últimos anos  aqui no blog. Tenho por ele o máximo respeito e até mesmo quando discordamos, aprendo com ele.

O texto a seguir é uma pérola sobre as incoerências e incongruências do irritante binômio "direita x esquerda" no qual se transformou a política não só no Brasil, mas no mundo todo.

Bernardo
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terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

"A herança maldita do PT", por Bolívar Lamounier

Bolívar Lamounier
A era lulopetista feriu a democracia brasileira muito mais profundamente do que se tem em geral admitido. Certos aspectos de seu triste legado estão aí bem à mostra: a corrupção sistêmica, cuja radioatividade está longe de terminar, e as insanidades econômicas do governo Dilma, que elevou para mais de doze milhões o número de desempregados.
Um dos piores estragos, do qual não nos livraremos tão cedo, foi, porém, a conspurcação da linguagem da vida pública. Aqui me refiro não apenas ao culto sistemático da mentira e à falsificação ideológica da história, mas também ao uso político de aberrações conceituais, essas não raro endossadas por “companheiros” que se autointitulam intelectuais. Desse tipo de falcatrua, o melhor exemplo é a visão de uma sociedade dividida entre “nós” (o povo, os bons, o bem) e “eles” (as “elites”, o mal, a ganância).
Desde a sua fundação há trinta e seis anos, o PT não se cansa de apresentar a história brasileira como obra de uma elite pequena, coesa, gananciosa, em permanente conspiração contra os trabalhadores e os pobres. Um País de verdade, onde todos tenham oportunidades, só a partir de Lula.
Como se vê, a pedra de toque desse discurso é a noção de elite. Ora, uma elite aristocrática, fruto de uma nobreza hereditária, é evidente que o Brasil não possui. Elite, no Brasil, é o agregado constituído pelos ocupantes das posições mais altas em diferentes hierarquias: os políticos eletivos, alta burocracia civil e militar, os empresários mais importantes, o alto clero das diferentes determinações, os intelectuais e cientistas, e assim por diante. Um agrupamento abstrato, meramente estatístico.
Assim compreendida, compondo-se de milhares de indivíduos, a elite é obviamente incapaz de conspirar, e aqui chegamos à ironia das ironias. O grande exemplo de País governado por uma elite conspiratória foi ele mesmo, o PT, que nos ofereceu. Ao se associaram umbilicalmente ao cartel das empreiteiras, Lula & Cia conspiraram o quanto puderam, com requintes de profissionalismo. Se foram finalmente pilhados, isso se explica por duas razões.
Um, o tamanho do animal que pretenderam digerir: a Petrobrás. Outro, a enorme extensão de sua prepotência e de seu sentimento de impunidade.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

"Os eleitores americanos entregaram a um vigarista o comando da única superpotência militar do planeta", por Augusto Nunes

Trump é o pajé dos sonhos da tribo dos deformados pela visão binária do mundo
Por: Augusto Nunes  09/11/2016 às 21:28

Milhões de alemães amaram Adolf Hitler. Milhões de italianos adoraram Benito Mussolini. Milhões de soviéticos veneraram Josef Stalin. Milhões de argentinos canonizaram Juan e Evita Perón. Milhões de venezuelanos se ajoelharam no altar de Hugo Chávez. E milhões de brasileiros viram em Lula um gênio da raça. Esses e outros precedentes informam que o triunfo de Donald Trump não foi a primeira manifestação de insanidade coletiva registrada desde o Dia da Criação. Nem será a última.

Tal constatação não reduz em nada a inquietação decorrente da entrega do comando da única superpotência militar, e da maior economia do mundo, a um vigarista de nascença. Trump é autoritário, intolerante, xenófobo, racista e mentiroso, fora o resto. Vagam por sua cabeça um muro na fronteira com o México, o sumiço dos imigrantes ilegais, a erradicação dos refugiados, uma fraternal aliança com o escroque Vladimir Putin e outras obscenidades geopolíticas.

Trump é o pajé dos sonhos da tribo dos deformados pela visão binária do mundo: direita e esquerda, bons e maus, nós e eles. Não existe o meio, nem o caminho do meio. Não há matizes, nem nuances. É o isto e o aquilo, o certo e o errado, o sim e o não. Esse universo repartido em duas fatias enxerga em Hillary Clinton (que é medíocre, mas nada tem de perigosa) uma esquerdista pronta para explodir o Empire State e vê em Barack Obama um espião do Islã infiltrado na Casa Branca.

O que fazer diante da ascensão de Trump e seus acólitos, que odeiam o convívio dos contrários, abominam a divergência democrática e acham coisa de esquerdopata tudo que se mova fora do território dos bolsonaros? Oremos. Oremos sobretudo pela eficácia do sistema de freios e contrapesos que garante há mais de 200 anos a consistência do mais antigo e musculoso regime democrático da Terra.

Ou as instituições americanas controlam as ordens emanadas do cérebro sitiado por um topete ou Trump tratará de subjugá-las recorrendo ao método que aperfeiçoou para amestrar mulheres. Primeiro vai agarrá-las pelo que os bicheiros cariocas chamam de genitália. Depois fará o que lhe der na telha.

http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/direto-ao-ponto/os-eleitores-americanos-entregaram-a-um-vigarista-o-comando-da-unica-superpotencia-militar-do-planeta/

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

"O Fim do Torpor"', Editorial do Estadão

O impeachment da presidente Dilma Rousseff será visto como o ponto final de um período iniciado com a chegada ao poder de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003, em que a consciência crítica da Nação ficou anestesiada

31 Agosto 2016

O impeachment da presidente Dilma Rousseff será visto como o ponto final de um período iniciado com a chegada ao poder de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003, em que a consciência crítica da Nação ficou anestesiada. A partir de agora, será preciso entender como foi possível que tantos tenham se deixado enganar por um político que jamais se preocupou senão consigo mesmo, com sua imagem e com seu projeto de poder; por um demagogo que explorou de forma inescrupulosa a imensa pobreza nacional para se colocar moralmente acima das instituições republicanas; por um líder cuja aversão à democracia implodiu seu próprio partido, transformando-o em sinônimo de corrupção e de inépcia. De alguém, enfim, cuja arrogância chegou a ponto de humilhar os brasileiros honestos, elegendo o que ele mesmo chamava de “postes” – nulidades políticas e administrativas que ele alçava aos mais altos cargos eletivos apenas para demonstrar o tamanho, e a estupidez, de seu carisma.

Muito antes de Dilma ser apeada da Presidência já estava claro o mal que o lulopetismo causou ao País. Com exceção dos que ou perderam a capacidade de pensar ou tinham alguma boquinha estatal, os cidadãos reservaram ao PT e a Lula o mais profundo desprezo e indignação. Mas o fato é que a maioria dos brasileiros passou uma década a acreditar nas lorotas que o ex-metalúrgico contou para os eleitores daqui. Fomos acompanhados por incautos no exterior.

Raros foram os que se deram conta de seus planos para sequestrar a democracia e desmoralizar o debate político, bem ao estilo do gangsterismo sindical que ele tão bem representa. Lula construiu meticulosamente a fraude segundo a qual seu partido tinha vindo à luz para moralizar os costumes políticos e liderar uma revolução social contra a miséria no País.

Quando o ex-retirante nordestino chegou ao poder, criou-se uma atmosfera de otimismo no País. Lá estava um autêntico representante da classe trabalhadora, um político capaz de falar e entender a linguagem popular e, portanto, de interpretar as verdadeiras aspirações da gente simples. Lula alimentava a fábula de que era a encarnação do próprio povo, e sua vontade seria a vontade das massas.

O mundo estendeu um tapete vermelho para Lula. Era o homem que garantia ter encontrado a fórmula mágica para acabar com a fome no Brasil e, por que não?, no mundo: bastava, como ele mesmo dizia, ter “vontade política”. Simples assim. Nem o fracasso de seu programa Fome Zero nem as óbvias limitações do Bolsa Família arranharam o mito. Em cada viagem ao exterior, o chefão petista foi recebido como grande líder do mundo emergente, mesmo que seus grandiosos projetos fossem apenas expressão de megalomania, mesmo que os sintomas da corrupção endêmica de seu governo já estivessem suficientemente claros, mesmo diante da retórica debochada que menosprezava qualquer manifestação de oposição. Embalados pela onda de simpatia internacional, seus acólitos chegaram a lançar seu nome para o Nobel da Paz e para a Secretaria-Geral da ONU.

Nunca antes na história deste país um charlatão foi tão longe. Quando tinha influência real e podia liderar a tão desejada mudança de paradigma na política e na administração pública, preferiu os truques populistas. Enquanto isso, seus comparsas tentavam reduzir o Congresso a um mero puxadinho do gabinete presidencial, por meio da cooptação de parlamentares, convidados a participar do assalto aos cofres de estatais. A intenção era óbvia: deixar o caminho livre para a perpetuação do PT no poder.

O processo de destruição da democracia foi interrompido por um erro de Lula: julgando-se um kingmaker, escolheu a desconhecida Dilma Rousseff para suceder-lhe na Presidência e esquentar o lugar para sua volta triunfal quatro anos depois. Pois Dilma não apenas contrariou seu criador, ao insistir em concorrer à reeleição, como o enterrou de vez, ao provar-se a maior incompetente que já passou pelo Palácio do Planalto.

Assim, embora a história já tenha reservado a Dilma um lugar de destaque por ser a responsável pela mais profunda crise econômica que este país já enfrentou, será justo lembrar dela no futuro porque, com seu fracasso retumbante, ajudou a desmascarar Lula e o PT. Eis seu grande legado, pelo qual todo brasileiro de bem será eternamente grato.

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