domingo, 18 de dezembro de 2022

"Carlinhos", por Marli Gonçalves

 


Para mim vai ser sempre assim. Carlinhos. Muitos o chamavam só assim; outros desavisados bem que não entendiam como é que aquele gigante gentil podia ter seu nome conhecido no diminutivo. Mas nós que com ele convivemos bem, sabemos. Era um crianção, sempre com a aguçada inteligência acima da média unida a um humor mordaz, precisão e memória implacável. Senta que lá vem história!

Carlos Brickmann nos deixou. Me deixou. Amigo há 45 anos, e com quem trabalho há 30 anos, vocês conseguem imaginar como estou me sentindo? De antemão, aviso: este texto será todo em primeira pessoa. Sou eu que estou falando dele, da dor de sua perda, de um tudo que significou para mim e para a história da imprensa nacional. Afinal, convenhamos: 30 anos dos quais 27 em convivência diária não é para qualquer um. Tocávamos de ouvido, como se fala em orquestras; à distância; perto, por um olhar, uma sacudida de cabeça, uma “dormida” em pé rápida que dava quando fechava por instantes os olhos matreiros, eu podia com toda a certeza acertar o que estava pensando. Era difícil um dia em que eu não aprendesse algo, daquelas coisas que só ele sabia, lembrava, ou mesmo tinha acompanhado ou estado lá nos seus 59 anos de profissão, vejam só que beleza!

Não era bom fisionomista, mas era capaz de lembrar em detalhes cada frase sussurrada ao seu ouvido tenha sido por Tancredo Neves, Ulisses Guimarães, Jânio, Montoro,  Quércia, Paulo Maluf, Kassab, uns ou qualquer outro político com o qual tenha estado. Todos o respeitavam e admiravam muito suas observações – um ás da comunicação e marketing político de campanhas. Fato é que – daquelas formas idiotas dos burros pensarem, se é que pensam – pregaram nele um adjetivo, “malufista”. Ah, mas não era mesmo! Era apenas um vitorioso, para vocês verem que naquela época ele conseguiu melhorar até a imagem do Paulo Maluf, e isso não é pouco. Carlinhos era um profissional como muitos poucos, destes que a gente anda procurando sem encontrar, como agulha no palheiro. Dava de ombros ao ouvir isso, ser chamado, xingado, de malufista. Mas eu digo que por conta dessa pecha perdeu amigos (se bem que amigos não deviam ser) e clientes. Uns não o contratavam porque seria malufista; outros, os mais malufistas, digamos assim, não o contratavam porque seria amigo do “chefe”, não queriam desagradá-lo.

Bobagem. Entre as amizades, a gama do arco do pensamento democrático, políticos de quem espero lhe rendam devidas homenagens. José Dirceu, Genoíno, outros muitos do PT e partidos de esquerda; Haroldo Lima, que perdemos com covid, do PC do B, o adorava, impressionado sempre com a firmeza de suas críticas. Lula, não, que ele nunca foi muito chegado. Implicava mesmo – e aí tínhamos um divertido embate, porque nunca descobri exatamente por causa do quê – era com a Luiza Erundina, com quem eu tenho forte amizade e calorosa consideração (sou Marlizinha para ela, desde que fui a primeira jornalista a entrevistá-la quando eleita vereadora, seu primeiro cargo público, há 40 anos atrás).

Carlinhos enfrentou generais na ditadura, despistou policiais e protegeu perseguidos políticos, buscou justiça pelo primo Chael, assassinado torturado. Gostava demais de lembrar que da montanha de processos que enfrentou com as verdades de suas colunas nos principais jornais, nunca foi o PT a lhe processar. Já o PSDB… E vou dizer mais: político esperto não gostaria de estar no alvo dele, que o diga um certo secretário de segurança de grande queixo com quem duelou por meses. Carlinhos adorava o chamar de gordo, queixudo, e o que mais lembrasse, acreditem. Um dia os vi se esbarrarem pessoalmente em Brasília no saguão de um hotel. O queixudo ameaçador ficou quietinho, baixou o olhar, leãozinho amansado, rabo entre as pernas.

Nosso Carlinhos sempre disse que, como gordo e feio que era, podia falar isso quanto quisesse de outro gordo e feio. Eita humor refinado, ardido! Sabiam que Carlinhos trabalhou com o Faustão, logo ali no começo dele na tevê? Escrevia para o programa.

Gostava de contar uma piada, construir uma frase, definir alguém por algum detalhe que acabava virando até código entre nós – olha, que politicamente correto ele não era mesmo. Piadas de judeu, de gordo, de velho, com sexo ou não, uma coleção. Histórias divertidas de jornalistas e suas trapalhadas, inclusive as amorosas, uma atrás da outra. Sua passagem foi marcante em todas as grandes redações: Folha de S. Paulo, onde pela primeira vez chegou com 19 anos, Jornal do Brasil, Estadão, Jornal da Tarde (foi um dos fundadores),  Revista Visão, Folha da Tarde(Toninho Malvadeza!), Folha de S. Paulo novamente (foram três vezes por lá). Em 92 fundou a Brickmann, hoje Brickmann & Associados, B&A Ideias, para a qual colaborei desde 1993 até ir para lá em 1996 e ficar até hoje.  Juntos, também criamos em 2015 o site Chumbo Gordo, que farei de um tudo para honrar, continuar reunindo o melhor do pensamento, os amigos, aberto à democracia.

Quantos trabalhos maravilhosos fizemos juntos! Como gostávamos de uma encrenca boa, gerenciar grandes crises, acompanhar uma CPI, defender nossos clientes com provas diante da opinião pública. Trabalho esse hoje cada vez mais escasso porque depende de quem tenha reputação a zelar, alguma explicação a dar para se defender.

E nunca parou de escrever suas colunas fantásticas, duas vezes por semana, para o nosso Diário do Grande ABC e repicado em nosso site e em jornais de sites de todo o país. Foi durante muito tempo também um crítico da imprensa em coluna especial no Observatório da Imprensa, de Alberto Dines. Parecia prever a caminhada da imprensa e da profissão para o buraco em que está hoje, repleta de desinteligentes, jovens talentos de um talvez futuro, pouca afeição aos mais velhos. Mas a sua história está e ficará para sempre registrada em todas essas páginas, muitas das primeiras páginas, capas, em grandes reportagens, nas colunas que acompanharam o tempo e as mudanças em círculo de nossa nação. Textos perfeitos, duros, irônicos. Muito trabalho, sem esquecer as participações em tevês, debates, e o amor ao rádio (há anos participava religiosamente do programa Showtime, com João Alckmin, de São José dos Campos). Nunca deixou um amigo na mão, sem cobrar um centavo. Era só pedir. Entrevistas para teses, livros de amigos, sinopses de filmes sobre o Brasil.

Autodidata, culto, leitor voraz. Posso garantir ainda o quanto nos últimos tempos odiou profundamente tudo o que Bolsonaro e sua gente aprontou nesse governo que ele, pessoalmente, considerava de inclinação nazista, para vocês verem o que observava das tramoias que enfrentamos. O descaso com a Saúde, a Economia na mão do poste Ipiranga, o desmonte das áreas de Cultura e social, o descaso com a verdade, o violento incentivo ao armamento. Carlinhos era da paz.

Mas preciso voltar mais a falar do Carlinhos mench, em ídiche, gente, “alguém para admirar e imitar, alguém de caráter nobre. A chave para ser ‘um verdadeiro Mensch’ é nada menos que caráter, retidão, dignidade, um senso do que é certo, responsável, decoroso”, ensina o Wikipedia. Nossos escritórios sempre em casas de vilas prazerosas onde desde sempre criámos gatos e gatas, que inclusive chegaram na porta e ali passaram a morar. MorphyMelPrincesa… Na sua casa, o amado Vampeta, o negro de olhos amarelos, irmão da minha Vesgulha Love. Sempre tivemos bichos irmãos. Minha husky Morgana era irmã do Lobo. Carlinhos deixa órfãos, além dos filhos Rafael e Esther, os gatos, a branquinha Jade, que deu à esposa Berta, o Léo, o Chumbinho, a Laila. De um ano para cá a perda de Vampeta e da Mel o deixaram especialmente deprimido.

Não posso deixar de registrar que Carlinhos era corintiano roxo. Que Seleção, que nada! Futebol era Corinthians, sem mais conversas. Adorava mangar dos “porcos”, palmeirenses, e dos são-paulinos, salto alto, etc, etc… Times cariocas, ignorados, todos. Daí, claro, o corintiano gato Vampeta.

Telefone. Difícil encontrar alguém que gostasse mais do que ele de falar ao telefone, claro que se não fosse no horário do jogo do Timão – e a gente ao ouvir tocar e assim que ouvia sua voz já se preparava para no mínimo uma hora de variada e divertida conversa Vai ter um monte de amigos lembrando disso também. No telefone, enquanto falava, jogava paciência no computador, o único jogo a que se dedicou, se distraía assim, pensando no tema da coluna, quando dava uma parada. Computador que, aliás, que foi ele quem me apresentou à esta tecnologia e ensinou a usar pela primeira vez, aqueles ainda do sistema DOS, de letras verdes.

Tristeza é não escutar mais a sua voz cheia de planos mesmo lá no hospital, logo que deu a primeira melhorada. “Marlizoca…” Na recaída não ouvi mais esse chamado; não ouvirei. Como pode uma perda desse tamanho? Alguém com tantas dimensões na vida de tantas pessoas?

Ah, se for para escrever sobre ele! Muita coisa divertida também. Os mais próximos bem sabem as duas coisas que odiava, o-di-ava. Bacalhau. Palmito (achava que era crime de lesa humanidade). Em compensação, amava abacaxi. Mas que não viessem com nenhuma rodelinha branquela, desmilinguida, que ele fechava o tempo, senhores e senhoras. Até com o garçom, nas poucas vezes que o vi muito bravo. Tinha de ser amarelinho, lindo, daqueles que só se encontra lá pelos lados de Brodowski, perto da sua amada Franca, outra de suas grandes honras. Dividia São Paulo em Capital e “Grande Franca” no seu mapa particular. Ai de quem não reconhecesse isso, e os doces de lá – chegou a escrever colunas para o Jornal de Franca apenas em troca que lhe mandassem os doces e que quando não chegavam, reclamava o pagamento.

Vou parar agora, que está difícil demais conter as lágrimas. Quem agora vai me chamar de Marlizoca? Marli “Gançalves”? Definida por ele, sempre, como o cinto mais largo da imprensa brasileira por conta do meu hábito de usar atrevidas mini saias nos tempos do Jornal da Tarde, nos anos 80, onde infelizmente não cheguei a trabalhar com ele, nessa época já na Folha.

Galanteador, ah, jogava charme mesmo para cima das moças, mas isso vou manter entre nós as que assisti. Mulher feia? Não existia. “Não só não existe, como até já paguei por algumas”, brincava, maroto. Quantas confidências. Quantas coisas ele também sabia da minha vidinha, sempre apoiando minhas escapadas para encontros fortuitos em algumas tardes.

Chega. Tem uma coisa nessas lembranças e brincadeiras todas que agora vira terrível realidade. Qualquer coisa que ele tinha, tipo sei lá uma dor aqui ou ali, fazia um drama teatral e falava para eu já chamar a Chevra Kadisha, desde 1923 a instituição responsável pela administração e sepultamentos dos cemitérios israelitas do Estado de São Paulo e que oferece serviço funerário religioso para a comunidade judaica.

Sabem? – nesse momento em que escrevo, por incrível que pareça e nem sei como estou conseguindo, o coração de Carlinhos ainda bate, fraquinho, lá no hospital, nos seus últimos momentos de vida, anunciado no fim e desenganado pelos médicos aguardando o apagar de seu corpo na frieza de uma UTI. Será uma questão de horas. Amargas e incontáveis horas, depois de semanas de sofrimento e perdas no leito do hospital. E a Chevra Kadisha, então, será chamada.

Perdemos Carlinhos Brickmann. Eu perdi. O CB. Um irmão. Um amigo fiel. Com ele, se vai mais um pedação, quase uma vida, e de minha própria história.




Marli Gonçalves, 
SP, 17 de dezembro de 2022


p.s.: Acabo de saber que você se foi, às 17h30, enquanto eu escrevia totalmente ligada em você


https://www.chumbogordo.com.br/422654-carlinhos/

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

"Manifesto à Nação", por Ciro Gomes




MANIFESTO À NAÇÃO

Na maioria das vezes em que um movimento nacionalista se levanta no Brasil, ele é  destruído pelas forças do atraso ou se autodestrói por acordos eleitorais espúrios.

É um  jogo de culpa-desculpa, trágico e repetitivo.

Para  esconder a culpa da renúncia covarde aos verdadeiros  ideais de mudança, muitos se escondem na desculpa de que para governar é necessária uma aliança com as forças do atraso.

E para eliminar, na raiz, a diversidade do embate democrático tentam transformá-lo, de forma artificial e prematura, no embate de duas forças que utilizam falsos argumentos morais para se tornarem hegemônicas.

Aqueles que ousam resistir —como é nosso caso—, são vítimas das mais violentas campanhas de intimidação, mentiras e de operações de destruição de imagem.

É o que está acontecendo agora quando estou sendo vítima de uma gigantesca e virulenta  campanha, nacional e internacional, para retirada da minha candidatura.

Mas nada deterá nossa disposição de seguir em  frente a empunhar a bandeira do novo Projeto Nacional de Desenvolvimento e, também, a denunciar os corruptos, farsantes e demagogos que tentam ludibriar a fé popular com suas falsas promessas.

Hoje, a máscara desta farsa cobre duas faces que, mesmo possuindo certos conteúdos e   contornos diferentes, trazem, de forma profunda,a matriz histórica dos erros que há décadas atrasam o Brasil e escravizam nosso povo.

É esta matriz —escrava de um modo corrupto de governar e de um modelo econômico  submisso aos interesses do mercado financeiro— que une Lula e Bolsonaro.

Bolsonaro não existiria se não fosse a grave crise econômica e moral dos governos petistas.

E Lula não sobreviveria, em sua ameaçadora decadência, se não fossem os desatinos criminosos de Bolsonaro.

Mesmo assim, as máquinas poderosas do lulismo e do bolsonarismo estão conseguindo ludibriar a percepção popular, passando a falsa ideia de que apenas um pode derrotar o outro.

E que este passo atrás é o único meio de levar o país adiante.

Esse rito suicida tem o incentivo comodista e covarde de setores da mídia e da  inteligência  que, em uma mistura de cumplicidade, amnésia e medo, perderam a nitidez dos fatos, das  causas, dos efeitos e de suas perigosas consequências.

Reduziram o debate a um choque vazio e oportunista entre um suposto bem e um suposto mal, enquanto produzem a campanha mais sem propostas e sem projeto da nossa história recente.

De forma deliberada, não questionam o fato de o Brasil vir adotando, há 30 anos, um modelo político baseado no conchavo, na corrupção e no toma lá dá cá; e de vir prolongando a vida de um modelo econômico  que  entrega  a riqueza do país para quem já tem muito e que distribui migalhas para quem tem pouco.

Em uma  das engenharias financeiras mais perversas da história mundial conseguiram  transformar, de 2003 a 2021, uma dívida pública de pouco mais de 600 bilhões de reais em uma dívida que ultrapassa 7 trilhões, mesmo tendo pago praticamente outros 7 trilhões.

Em termos  gerais, a cada trilhão que pagamos da dívida, ela aumenta em mais um  trilhão,  ao invés de diminuir, algo completamente absurdo, ainda mais se lembrarmos que as taxas de juros são definidas pelo próprio governo.

Não por acaso, esta trágica engenharia  financeira  transformou-se em uma pavorosa tragédia social.

Por esta e outras razões, o Brasil tem uma das piores concentrações de renda e desigualdades sociais do mundo.

Aqui, os cinco mais ricos acumulam uma fortuna equivalente a tudo que os 100 milhões  de brasileiros  mais pobres  possuem,  e cinco bancos  concentram 85% do mercado, o que lhes permite impor à população os juros mais altos do planeta.

Esquecem-se, ou fingem esquecer, que, exatamente por isso, cerca de 40 mil indústrias e mais de 350 mil comércios fecharam as portas do governo Dilma para cá; e que mais de 66,6 milhões de pessoas e 6 milhões de micro, pequenas e médias empresas estão com o nome sujo no SPC ou no Serasa.

É por conta desse esquecimento deliberado e criminoso que ostentamos tantos outros números que nos causam vergonha e indignação.

Somos o segundo maior produtor de alimentos do mundo, porém aqui mais de 33 milhões  de brasileiros passam fome, 125 milhões não conseguem fazer as três refeições diárias e  até carcaças de animais são vendidas como alimento.

Somos uma das maiores economias do planeta, mas aqui 55,5 milhões de pessoas vivem só com 14 reais ou menos ainda por dia; o desemprego ronda a casa dos 10 milhões; 5 milhões são desalentados, ou seja, pessoas que  já desistiram de procurar emprego; e o subemprego, que paga menos que o mínimo e não garante nenhum direito, tornou-se a regra geral e não a exceção.

Lula e o PT passaram 14 anos no poder e deixaram o Brasil com os mesmos problemas que encontraram. A prova disso é a rápida evaporação dos efeitos da fugaz benesse que   conseguiram produzir impulsionada por ciclos favoráveis das commodities.

Lula continua a repetir que colocou os pobres no orçamento quando, na verdade, os contentou com migalhas, deixando-os onde sempre estiveram: na escravidão da pobreza.

Bolsonaro, sua cria maligna, seguiu parte desta cartilha, aliando-se ao Centrão e vendendo-se à corrupção e ao clientelismo.

E acrescentou, sem dúvida, conteúdos gigantescamente mais pavorosos: o desrespeito às instituições e crimes contra a humanidade.

Mas estas diferenças não conseguem os separar de todo.

Ao contrário, conteúdos políticos e econômicos profundos mais os aproximam do que os separam.

Por isso tudo, o Brasil está na iminência de sofrer a maior fraude eleitoral da nossa história.

Não a mentirosa fraude das urnas eletrônicas, inventada por Bolsonaro.

Mas a fraude do estelionato eleitoral que sofrerão as vítimas que apertarem, nas umas invioláveis, o 13 ou o 22.

As urnas são de fato invioláveis, mas a legítima vontade popular está sendo tremendamente  violada.

Pois os que pensam que ao apertar o 13 elegerão Lula (mesmo que com seus defeitos), estarão, na verdade, elegendo os mesmos que saquearam o país nos últimos anos, com os quais Lula vergonhosamente de novo se aliou.

Aqueles que pensam que ao apertar  o 22 elegerão  Bolsonaro  (mesmo  que com suas deformidades) estarão, na verdade, elegendo  a outra parte da corja que  saqueou  o país  em  governos  anteriores, e que pularam  agora para um novo barco que disputa, com a mesma rota, a reta de chegada ao caos.

Mas ninguém traz isso para o debate.

Agora, na reta final da campanha mais vazia da história, embalam tudo no falso argumento do “voto útil”.

Com esta pregação, querem eliminar a liberdade das pessoas de votarem, no regime de  dois  turnos,  primeiro  no  candidato  que  mais  representa  seus valores, e, se for o caso, de optarem depois por aquele que mais se aproxime de suas ideias.

Querem privá-las do direito de expressar  seus sonhos e de testar a força de suas posições, enriquecendo o debate e fortalecendo  a pluralidade de ideias.

Querem calar as vozes das dissidências e submetê-las, sob o regime do medo e do terror velado, a dois blocos rivais que se escondem no maniqueísmo e no personalismo para disfarçar as profundas semelhanças  de suas candidaturas.

Por mais jogo sujo que pratiquem, eles não me intimidarão.

Não fugirei do verdadeiro embate democrático e não compactuarei com esta farsa.

Tenho compromisso de vida e morte com a luta por um Brasil melhor e nada me amedrontará nem irá me deter!

Minha candidatura está de pé para defender o Brasil em qualquer circunstância. E meu nome continua posto, como firme e legítima opção, para livrar nosso país de um presente covarde e de futuro amedrontador.

Com rebeldia e esperança ainda podemos, juntos, salvar nossa pátria.

Levanta, Brasil!



"Luloafetivos não sabem se voto útil é para derrotar Bolsonaro ou Ciro", por Madeleine Lacsko



Madeleine Lacsko
Colunista do UOL

22/09/2022 09h02

Tenho muita fé de que duas coisas salvarão o Brasil: matemática e antidoping. Ambas são mais que necessárias nesses últimos dez dias de campanha, com redes sociais pegando fogo e fígados falando muito mais alto que cérebros.

Se esculhambação fosse esporte olímpico, acho que nós nem poderíamos competir. O país seria hors concours. Mal começou a campanha luloafetiva pelo "voto útil", já desceu a ladeira completamente.

É normal das democracias a tentativa de convencer adultos a tratar eleições presidenciais como se fosse uma corrida do Jockey Clube. Em vez de escolher um futuro, você aposta no cavalo que ganha. E isso funciona porque, enquanto houver cavalo, São Jorge não anda a pé.

Jair Bolsonaro não faz um governo, faz um acidente de trem. Natural que o oponente mais cotado nas pesquisas, Lula, pregue a utilidade de acabar com a agonia de uma vez só. São democráticos e legítimos os argumentos no sentido de liquidar a fatura no primeiro turno.

A coisa começa a esculhambar na absoluta falta de matemática e lógica básica da artilharia pesada contra Ciro Gomes. Até outro dia, ele e sua militância eram chamados de insignificantes e turma dos 7%.

É preciso decidir: ou são insignificantes ou a existência deles ameaça o futuro do Brasil. Não tem como ser as duas coisas ao mesmo tempo.

A outra coisa é a fake news surgida e sedimentada no imaginário nacional devido à falência absoluta do ensino de matemática. Se Ciro não tivesse "ido a Paris", Haddad teria vencido Bolsonaro.

Primeiro que Ciro estava no Brasil e votou em Haddad. Depois que, se ele fosse ao cartório e doasse ao petista todos os votos dele, Bolsonaro ganharia do mesmo jeito.

A campanha petista em 2018 foi sectária e incompetente. Nos dois quesitos, Jair Bolsonaro ganha de lavada. E foi isso o que ocorreu.

Como diria Homer Simpson "a culpa é minha, coloco em quem eu quiser". É o que fazem sistematicamente o PT e sua gloriosa trupe de apoiadores progressistes gourmet.

Passam anos xingando de fascista, tesourando profissionalmente e difamando todo mundo que não se ajoelha diante de Lula. Depois exigem apoio incondicional para continuar com o mesmo comportamento. Quando não dá certo, arrumam um culpado.

A moda da semana entre os Che Guevara de apartamento é dizer que a candidatura de Ciro não pode existir em nome da democracia. Seria cômico se não fosse trágico.

O eurocentrismo da nossa elite urbana impede que a manobra de construção de um "Arquitecto da Paz" fique clara. Dançam à beira do precipício ao som da perigosa ideia de um único fiador da paz nacional.

Acompanhassem as ideias de algum pensador além dos colonialistas, veriam que é uma forma de destruir democracias e liberdades individuais. Você ergue uma força que seria a pacificadora ou estabilizadora às custas do esmagamento dos direitos e até da dignidade de todas as demais.

José Eduardo dos Santos, falecido ditador de Angola e o mais longevo do continente africano, foi conhecido como o "Arquitecto da Paz". Esmagando qualquer um que o questionasse, acabou com a guerra civil e os conflitos que impediam o país de viver um mínimo de normalidade.

É uma espécie de "paz" diferente da que pregava, por exemplo, Martin Luther King. Para ele, a paz não é a ausência de conflitos, mas a presença de justiça.

Não é esse tipo de paz social pela qual lutam os luloafetivos. Miram mais em Ciro que em Bolsonaro, apelam para o pânico moral diante de eleitores que não sejam de Lula ou Bolsonaro, pregam eliminação de representatividade em nome da democracia, são lenientes com as fake news e a virulência do janonismo.

O desengajamento moral dos luloafetivos já está feito. Consideram que a existência de Lula basta para se opor ao chiqueiro moral do bolsonarismo. Por isso, agem da mesma forma que os bolsonaristas agiam em 2018, achando que o país colherá frutos diferentes. Oremos.

terça-feira, 31 de maio de 2022

"Johnny Depp fez de Amber Heard uma vilã megera em júri circense", por Helen Beltrame-Linné

De todo o lado estouraram memes zombando da atriz e ridicularizando suas alegações de violência doméstica

 

31.mai.2022 às 15h41

Helen Beltrame-Linné


Foi por puro acaso que assisti ao início do julgamento entre Johnny Depp e Amber Heard. Cliquei no link da newsletter por pura curiosidade, querendo colar uma imagem àquelas palavras —afinal, não via o rosto de Depp há anos e nunca tinha ouvido falar de Heard. Mal sabia que estava dando início a um verdadeiro espetáculo seriado do qual seria impossível escapar.

Como em qualquer produto audiovisual que se preze, o segredo é criar um personagem forte logo nos primeiros instantes, e disso se encarregou o testemunho inicial de Depp. Num tom entre o etéreo e o idiossincrático, era difícil desgrudar os olhos da imagem hipnotizante do galã, com sua estranheza e o inegável carisma que lhe rendeu carreira milionária em Hollywood.

Seu depoimento destoava do que costumamos ver em filmes e seriados sobre tribunais —não havia perguntas ou objeções, o que se tinha ali era um monólogo auto-centrado e interminável do ator. Depp falava como que para si mesmo, provavelmente sabendo que a câmera da sala de julgamento se encarregaria de transformar uma fala para ninguém num discurso para milhares.

Ouvindo seus relatos, em especial sobre sua infância, fui tomada por uma empatia triste por aquele personagem. Que milionário infeliz, pensei, não há dinheiro nem sucesso no mundo que vá dar a ele o amor que nunca teve dos pais.

À medida em que o julgamento avançou, com alegações e detalhes sórdidos nas semanas seguintes, continuei sentindo tristeza por aqueles personagens milionários e miseráveis. Mas a esse sentimento se juntou um outro: fui tomada por raiva.

De todo o lado estouravam memes zombando de Heard e ridicularizando suas alegações de violência doméstica. As fotos não revelariam um olho roxo suficientemente claro para provar a violência física do marido, seu nariz não estaria lá tão inchado, a lesão no coro cabeludo não bastaria para provar que o tufo de cabelo no chão era mesmo de Heard e não extensões capilares.

As testemunhas em favor das alegações de Heard sobre o desequilíbrio do companheiro, que incluiam desde ex-amigos, sua maquiadora e até a ex-agente de Depp, teriam sido compradas. Quem assistiu esses testemunhos concordaria comigo que pessoas contratadas teriam dado depoimentos mais coesos.


O mais assustador é que para tomar o lado de Depp, seria necessário ir além das testemunhas e ignorar a performance do próprio Depp na sala de julgamento. Um homem que, sob o escrutínio da transmissão ao vivo, se permitiu ouvir depoimentos macabros fazendo desenhos e dando risadinhas, e respondeu com deboche e ironia aos questionamentos dos De fato, nem é preciso imaginar. Num vídeo exibido no julgamento, Heard chega na cozinha de manhã e encontra Depp fora de si, claramente alterado por alguma droga, bebendo vinho como se fosse água, discorrendo impetuosamente sobre coisas sem sentido e destruindo os armários ao seu redor. A índole violenta e imprevisível do ator fica evidente, e me deu calafrios.

O que assusta mais do que a resistência generalizada em reconhecer manchas no galã simpático que estampou as paredes de seus quartos adolescentes vinte anos atrás, é o fato de a opinião pública ter colocado Depp e Heard em pé de igualdade.

Tornaram-se comuns declarações nas seguintes linhas, por pessoas que não acompanharam o julgamento: "Duas estrelas de Hollywood estiveram casadas durante apenas alguns meses, durante os quais consumiram drogas, destruíram casas e se agrediram mutuamente".

Ora, Heard era uma atriz desconhecida quando se casou com o multimilionário e célebre Depp –ela com 24, ele com 47. Nunca houve igualdade entre os dois. O americano é dono de um fortuna imensurável, tem uma ilha privada nas Bahamas, uma vila na França, um castelo na Inglaterra, além de inúmeras coberturas em Los Angeles e uma rua inteira de casas na cidade. As estimativas mais ousadas colocam a fortuna de Heard, depois do divórcio que lhe rendeu US$ 7 milhões, em US$ 12 milhões, o que não significa nem 5% da de Depp.

Depp tem a seu dispor uma verdadeira máquina de assistentes, publicistas, além de seus fanáticos fãs que conduzem campanha de ridicularização de Heard nas mídias sociais. Não há nem mesmo igualdade física entre os dois —Depp é um homem bastante encorpado de 1,78, enquanto Heard uma mulher mirrada que pesava cerca de 50kg quando entrou com o pedido de divórcio e ordem de restrição para evitar contato do marido.

A desigualdade era constante no próprio julgamento. Se Depp podia dar seus longos depoimentos e respostas cínicas, com Heard era o oposto. Bastava uma continuação além da resposta para que a advogada de Depp pedisse para excluir dos registros o que a atriz havia dito. Pior, durante o questionamento de Heard, a advogada de Depp não lhe deixava terminar uma frase —os protestos constantes quebravam sua linha de raciocínio e protegiam Depp do que seria revelado nas respostas. Enquanto Heard era silenciada e sua advogada afogada em questões burocráticas legais, Depp ria com seus óculos escuros sentado em sua cadeira na corte.


A quantidade de brigas e conflitos relatados por ambas partes aponta para um relacionamento extremamente tóxico. E a personalidade de Heard, que se via como uma "mulher durona", que se orgulhava de não se vimitizar nem quando era claramente vítima de abuso, dá indicativos de que deveria haver sim agressões mútuas. Mas o diferencial vem num depoimento comovente de uma ex-amiga de Heard: "Ela não tinha muita auto-preservação."

Um diálogo gravado entre Depp e Heard revela a dinâmica do casal —a atriz é forçada a pedir desculpas por ter gritado com Depp na frente do filho do ator depois de ele ter derrubado vinho em cima dela pela terceira vez. Ora, um homem adulto se embebeda a ponto de desmaiar com um copo de vinho na mão na frente de seu filho, e quem deve pedir desculpas por assustar a criança é a madrasta que gritou?

Um colaborador de Depp revelou uma anedota que passou desapercebida, mas contribui para a compreensão da mentalidade do ator. Durante as gravações de suas cenas, ainda que esteja contracenando com outros atores, Depp ouve música alta num ponto de som no ouvido. Convenhamos, uma pessoa dessa não pode ser equilibrada.

Isto sem mencionar as mensagens trocadas por Depp com amigos (como o ator Paul Bettany) e funcionários falando em desejos de morte, violência sexual e "humilhação global" contra Heard. ​

Há inúmeros episódios protagonizados pelo "monstro" –palavra que o próprio Depp usava para se descrever depois de consumir álcool e drogas. Num deles, Depp perde a ponta do dedo num acidente mal explicado que ele tenta creditar a Heard, que teria jogado uma garrafa em sua direção numa briga. Nem médicos especialistas foram capazes de justificar que o corte sofrido pelo ator era consistente com o que ele descreve. As testemunhas de Depp, contudo, insistiam nunca terem visto Depp usando drogas, como seu técnico de som contratado que, entre relatos deslumbrados sobre as viagens espontâneas de jatinho que fazia à ilha de Depp, contou nunca ter visto Depp bêbado, pois a bebida não tinha nenhum efeito nele.

"Há uma vítima de abuso doméstico nesse julgamento e esse alguém não é a Sra. Heard", declarou uma das advogadas do ator. Como acreditar nisso? Depp justificou seu desinteresse na sala de julgamento com uma anedota —teria declarado à ex-mulher, por ocasião do divórcio pedido por ela, "você nunca mais verá os meus olhos". Seriam essas palavras de um homem que foi vítima de abuso ou antes de um predador que não aceita ter perdido sua presa?

Depois de tudo que se passou entre os dois –incluindo um processo contra o jornal britânico The Sun, no qual o juiz declarou que as acusações de abuso de Heard eram "substancialmente verdadeiras" –que conclusão tirar desse processo movido por Depp? Uma ação de indenização contra Heard por causa de um artigo de jornal no qual ela declara que teve um relacionamento abusivo –o que, ainda que metade de suas alegações sejam falsas, ela de fato teve.

Não parece mais do que uma manobra desesperada de uma estrela decadente, financeiramente quebrada, que perdeu o seu agente, as franquias que lhe garantiam salários milionários e claramente jogou a própria vida na lata do lixo.

Resta agora ver se o júri estava assistindo ao mesmo julgamento que eu. Enquanto eles deliberam, o despreocupado Depp faz aparições surpresa em shows de Jeff Beck pelo mundo. Nada mais interessa a Depp, protagonista inegável do espetáculo "Depp x Heard", que deu a Heard o papel de vilã megera.

Já Heard segue sob ataque, motivo de chacota mundial, vivendo o que havia declarado no fatídico artigo que deu origem a todo esse circo: "Dois anos atrás, me tornei uma figura pública representando abuso doméstico, e senti a força completa da ira da nossa cultura contra mulheres que ousam denunciar abusos".



https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/05/johnny-depp-fez-de-amber-heard-uma-vila-megera-em-juri-circense.shtml

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